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02/08/2006
A mulher sexualmente
livre; a de verdade (Por *Flávio Gikovate)
Tenho insistido no fato de que a indústria pornográfica
tem nos imposto um modelo de mulher que está fundado no
fingimento. Têm um comportamento sexual que, mesmo
falso, seria o dos sonhos dos homens: aceitam todo o
tipo de prática, têm uma postura geral de submissão
(ajoelham-se para fazer sexo oral neles), dão
demonstrações ruidosas de prazer, especialmente quando
são penetradas. Isso tanto na penetração vaginal como
anal. Dizem várias vezes que estão gozando, de modo que
estariam tendo orgasmos fáceis em qualquer destas
circunstâncias. A submissão chega ao extremo quando elas
oferecem a face para que os homens ejaculem.
Não dão sinais de estarem tendo prazer tão intenso
quando são os homens que fazem sexo oral nelas. Isso
parece ser apenas uma das preliminares, e que acontece
sempre de forma um tanto rápida (exceção talvez ao sexo
oral que elas fazem neles, mais demorado e cheio de
sofisticações). É tudo muito diferente da vida real,
onde homens e mulheres gostam muito dos prolongados
beijos na boca, nas carícias manuais por sobre a roupa,
da descoberta delicada e pausada das partes dos corpos
que vão se mostrando aos poucos. Tudo sempre intercalado
com beijos na boca e também em outras partes da cabeça e
pescoço.
A realidade é que a grande maioria das mulheres se
excita mais facilmente por meio da estimulação do
clitóris do que da penetração vaginal ou anal. Os beijos
mais ardentes são parte essencial do processo de entrar
no clima erótico. São o sinal de que se pode ir adiante.
É o modo como o tom romântico caminha para o erótico,
completamente diferente. Sim, porque o erótico é mais
grosseiro, mais rude, mais “mamífero” e um pouco mais
vulgar. Isso é verdade também na realidade e é assim que
tem que ser porque a atmosfera romântica encaminha mais
na direção da ternura do que do tesão.
A descrição que faço certamente está prejudicada pelos
meus olhos masculinos e pelos erros que cometo na
empreitada de tentar penetrar na forma como sente uma
outra pessoa – e tão diferente, ao menos neste aspecto,
como é a mulher do homem. Mas a impressão que tenho é a
de que as mulheres de verdade e que são verdadeiramente
livres do ponto de vista sexual vão, aos poucos, se
entregando à excitação que toma conta delas à medida em
que são tocadas. As mulheres são muito sensíveis aos
estímulos tácteis, de modo que aquelas que não têm medo
e nem freios de outra ordem (ligados, como regra, ao
desejo de controlar a relação) vão entrando num clima de
entrega, de se deixarem perder naquele amontoado de
sensações. Vão se abrindo. Isso pode ou não vir
acompanhado de manifestações ruidosas, sendo fato que um
volume maior de ruídos não indica obrigatoriamente maior
intensidade de sensações.
As mulheres são particularmente sensíveis à estimulação
clitoridiana justamente porque lá se encontram
terminações nervosas em grande concentração, o que
provoca a máxima intensidade da excitação determinada
pelos estímulos tácteis. O mesmo não acontece durante a
penetração vaginal, órgão essencialmente reprodutor e
pobre em terminações nervosas (se a vagina fosse muito
inervada as dores do parto seriam insuportáveis, já que
nesta ocasião terá que passar um feto cujo diâmetro da
cabeça é de cerca de 15 cm). É claro que existem
estímulos eróticos que derivam de aspectos simbólicos e
não apenas da estimulação nervosa. Assim, uma mulher
pode gostar de se sentir penetrada – possuída, como se
dizia antigamente – pelo homem que ela gosta.
Este é o momento para reafirmar que todo este processo
de se descontrair e de se descontrolar, de se entregar
de corpo e alma à estimulação sexual, costuma acontecer
apenas quando a mulher está transando com um parceiro
que seja pessoa amada; ou então, amiga e conhecida o
suficiente para que possa se estabelecer um clima de
confiança e segurança a ponto dela se soltar da forma
que descrevi. Assim, ainda que o amor não participe
intensamente da hora da transa, o fato do parceiro
sexual ser o objeto do amor e da confiança aumenta muito
as chances de uma mulher conseguir a proeza de se deixar
levar por sua excitação sexual.
Acredito que algumas mulheres aprendam a lidar com sua
sexualidade de uma forma tão serena e segura que
consigam se deixar “embriagar” pela excitação erótica
mesmo com um parceiro que mal conhecem. Porém, são
poucas. Aliás, são poucas as mulheres que querem
efetivamente aprender a serem assim: tão donas de si e
de sua sensualidade. A maioria prefere mesmo o
relacionamento com parceiro sentimental. Isso tem a ver
também com o que acontece no final, quando homens e
mulheres saem deste estado de êxtase solitário (sim,
porque a intensidade erótica muito intensa nos faz
presos a nós mesmos e sem condição de olhar muito para o
parceiro) e sentem muito prazer em encontrar a seu lado
aquele a quem amam. É bom registrar com ênfase que o
vazio relacionado com o fim da relação sexual talvez
seja até maior no homem que na mulher. Ou seja, os
rapazes que evitam o sexo sem compromisso estão mesmo é
pensando no buraco no estômago que irão sentir no final.
* Flávio Gikovate:
Médico Psicoterapeuta, Conferencista e Colaborador de
várias revistas e jornais de grande circulação.
Site:
http://www.flaviogikovate.com.br
Contato:
instituto@flaviogikovate.com.br |
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