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17/08/2006
Ensaio sobre a Amizade
“A gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens
não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram
tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de
amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um
amigo, cativa-o!”
(Antoine de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe)
Quando crianças, temos um mundo inteiro para descobrir e
explorar. E este mundo parece não ter fronteiras,
tamanha sua vastidão. Olhamos ao redor e tudo o que
vemos é a linha do horizonte.
Mas há um aspecto muito bem delimitado. Ele corresponde
à amizade. Nossos amigos são poucos e estão sempre
próximos. Acompanham-nos à escola, curtem o recreio
conosco, partilham a merenda. Ao lado deles fazemos as
tarefas, estudamos para as provas, praticamos esportes e
brincamos.
A idade avança e somos contemplados com o rótulo de
adultos. Mudam nossos propósitos, responsabilidades e
prioridades. E, quase que invariavelmente, também
mudamos de casa, de bairro, talvez de município, Estado
ou mesmo país.
Nosso mundo, agora, fica bem delineado. Passamos a
tratar com mais e mais pessoas e, paradoxalmente,
cultivamos menos amizades porque nossas relações são
todas marcadas com o lacre da superficialidade.
Pessoas entram e saem de nossas vidas. Muitos passam a
ser nossos conhecidos, de um vizinho que mora na casa ao
lado ou no apartamento do andar de cima, a profissionais
que vemos em uma reunião de negócios ou congressos.
Sobre estes, pouco ou nada sabemos, nem mesmo o nome.
Já alguns passam a ser nossos colegas. Dividem o tempo e
o espaço conosco, sobretudo no ambiente de trabalho. Por
conta deste vínculo, temos teoricamente objetivos
comuns, metas a serem alcançadas, até valores
corporativos alinhados! Sabemos seus nomes, seus cargos,
suas atribuições, mas podemos conviver por anos
separados por uma única divisória ou porta sem conhecer
suas preferências, sua família, sua história de vida.
De tanto refletir, descobri algumas coisas que dizem
respeito à amizade.
Amigos são pessoas que compartilham com alegria as
nossas vitórias, mas que nos acolhem despretensiosamente
nos maus momentos. Nós os descobrimos na adversidade e
na infelicidade. São apoiadores por natureza, mesmo
quando discordam de nossas posições. Bons ouvintes,
concedem-nos sua atenção e sabem que muitas vezes não
queremos opiniões ou comentários, mas apenas sermos
pacientemente ouvidos.
Adeptos da diversidade, pouco lhes importam aspectos
como raça, credo ou condição sócio-econômica, pois
respeitam nossas diferenças antes mesmo de desfrutar as
semelhanças. Surpreendem-nos com freqüência e são
admiráveis confidentes, compartilhando seus segredos – e
os nossos.
Não existem bons ou maus amigos, sinceros ou
dissimulados. Por definição, um amigo é verdadeiro,
honesto, leal e digno de honra e admiração. Lembro-me de
Publius Syrus: “A amizade que acaba nunca principiou”.
Melhor do que conquistar novos amigos é conservar os
velhos. Por isso, visite seus amigos com freqüência. O
mato cresce depressa nos caminhos que são pouco
percorridos. Relacionamentos não se constroem por
telefone ou e-mail. São bons expedientes para se manter
uma amizade, mas precisamos mesmo é estar “cara a cara”
com as pessoas que apreciamos. Olhos que brilham, braços
que envolvem, palavras que acalentam. Vale o alerta de
Fred Kushner: “Eu deveria ter visitado mais meus amigos
e lhes contado como me sentia em vez de só encontrá-los
em enterros”.
A amizade torna as pessoas mais amenas, gentis,
generosas e felizes. Mas, para se ter amigos, é preciso
antes ser um. E isso envolve atitude...
Começar junto e terminar junto. Assim se edifica uma
sólida amizade.
* Tom Coelho, com formação em Economia pela FEA/USP,
Publicidade pela ESPM/SP, especialização em Marketing
pela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela
FIA-FEA/USP, é empresário, consultor, professor
universitário, escritor e palestrante. Diretor da
Infinity Consulting e Diretor Estadual do NJE/Ciesp.
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