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31/08/2006
O ciúme entre os filhos
João e Helena se casaram há cinco anos. João é advogado
e Helena estudou Filosofia e Letras. João trabalha em
uma multinacional e Helena dá aulas de Filosofia em um
Instituto. No ano que se casaram tiveram seu primeiro
filho: Luís, que agora tem quatro anos.
Luís sempre foi uma criança muito esperta. Começou a
falar muito cedo e seu nível de vocabulário surpreende
para uma criança de sua idade. É aberto e comunicativo e
por ser o primeiro filho e também o primeiro neto por
ambas partes, foi o centro da família durante algum
tempo.
Há nove meses João e Helena tiveram seu segundo filho:
José. José nasceu abaixo do peso e teve que permanecer
seu primeiro mês na incubadora. Durante esse mês sua mãe
passava quase todo o dia na clínica para poder ver-lhe e
quando pôde trazê-lo para casa teve que prestar-lhe uma
atenção especial. Durante esse mês Luís esteve aos
cuidados de seus avós maternos.
A reação de Luís ante seu novo irmão foi boa. Não
parecia ter ciúmes, ainda que tampouco lhe prestasse
muita atenção, já que o pequeno passava a maior parte do
dia dormindo. Todavia, há dois meses Luís começou a
portar-se de forma estranha. Voltou a fazer xixi na
cama, apesar de que desde os dois anos não mais o fazia,
e chupava o dedo constantemente. Com seu irmão às vezes
é muito carinhoso mas observamos que lhe belisca as mãos
quando não olhamos e lhe fez alguns arranhões.
Luís, que sempre foi dorminhoco, agora tem freqüentes
pesadelos. Ficou mais desobediente, em especial quando
recebem visitas dos avós ou outras pessoas alheias à
família. Comporta-se mal e com freqüência acaba sendo
castigado com uma bronca. Seus pais já não sabem o que
fazer. Apesar de chamarem sua atenção e lhe castigarem,
não vêem resultado.
É possível que tenha ciúmes?
A situação que acabamos de examinar, é um caso típico de
ciúmes entre irmãos. Os ciúmes constitui uma reação
emocional que se caracteriza por um sentimento de inveja
e ressentimento generalizado para a pessoa que se
considera como rival.
Os ciúmes aparecem especialmente por volta dos 4 anos.
Nesta idade a criança começa a perceber os "outros" como
rivais. É possível que os ciúmes apareçam antes na vida
da criança, mas é especialmente nesta idade quando toma
forma e cria situações importantes e às vezes
duradouras.
ATRAVÉS DE SEUS CIÚMES SEU FILHO ESTÁ RECLAMANDO SUA
ATENÇÃO
A criança ciumenta costuma mostrar uma série de condutas
características. Por exemplo:
- Costumam aparecer condutas regressivas como voltar a
fazer xixi na cama, chupar o dedo, não querer comer
sozinho, utilizar uma linguagem ou tom de voz infantil.
Através destas condutas pretende chamar a atenção das
pessoas cujo afeto teme ter perdido.
- Com freqüência mostra-se irritado, nervoso e
agressivo. Esta agressividade invejosa costuma
manifestar-se na obstinação, como oposição sistemática.
Se trata do conhecido "diga você que eu me oponho". Esta
constitui sua grande arma para atrair a atenção dos
adultos e para obrigar-lhes a tê-lo em conta.
- Seus sentimentos para com o novo irmão são
freqüentemente contraditórios, uma mistura de amor e
ódio: por um lado lhe quer bem mas por outro experimenta
uma grande agressividade por ele.
- Esta agressividade pode aparecer de forma mais ou
menos dissimulada: às vezes a criança ignora o irmão ou
nega sua presença. Em outras ocasiões pode mostrar
condutas ou muito hostis e agressivas ou muito
carinhosas por seu rival: como, por exemplo, quando lhe
abraça até machucar. Em algumas ocasiões a agressividade
se dirige de forma indireta para a mãe: a criança, por
exemplo, aproveita um descuido da mãe para esparramar
toda a pasta de dente no tapete, se dedica a esculpir a
comida, ou outras "lindezas" parecidas.
Outras crianças manifestam seus ciúmes fazendo uma
contínua referência a seu irmãozinho. Quando vêem um
cachorro dizem que o irmãozinho quer um cachorro e
quando vê a seus amigos de bicicleta, dizem que seu
irmãozinho também tem uma bicicleta.
OS CIÚMES TAMBÉM PODE MANIFESTAR-SE DE FORMA DISSIMULADA
As vezes os pais pensam que seu filho não tem ciúmes e
que quer muito bem ao recém-nascido. Entretanto, os
ciúmes podem se manifestar de formas mais dissimuladas.
Algumas crianças passam meses sem sentir ciúmes e de
repente despertam quando seu irmão é maior e começa a
ser mais gracioso, ou quando este começa a lhe tirar os
jogos.
Por que surgem os ciúmes?
Na família, a rivalidade entre os irmãos para conseguir
o carinho e a atenção dos pais é a causa mais freqüente
dos ciúmes. O nascimento de um novo irmãozinho costuma
ser a causa mais freqüente.
Diante do nascimento de um novo irmãozinho a criança
sente que o mundo inteiro parece mover seu centro para
outro ponto que já não é ele. Começa a acreditar que não
lhe querem ou que lhe abandonaram, o que freqüentemente
gera nela sentimentos de culpabilidade e baixa
auto-estima. Esta culpabilidade se vê incrementada pelos
sentimentos hostis que experimenta por seu irmão
recém-nascido, que ele é consciente de que não são bons.
A CRIANÇA CIUMENTA SE SENTE ABANDONADA
Nesta situação, a criança necessita ser duplamente
querida e cuidada. Entretanto freqüentemente os pais não
são conscientes desta necessidade e tanto pais como
familiares se maravilham das perfeições do recém-nascido
esquecendo o mais velho e relegando-o ao lugar do
"príncipe destronado". Isto faz com que a criança se
ressinta e manifeste este ressentimento através das
condutas antes mencionadas.
Os ciúmes também podem dar-se de um irmão menor para seu
irmão maior. Isto ocorre com frequência quando o menor
vê em seu irmão um "teto impossível de rebaixar". Quando
o vê como um rival que sempre faz tudo melhor que ele.
Deste modo podem aparecer ciúmes quando o menor observa
que seu irmão goza de certos "privilégios" que a ele lhe
negam. Ante essa situação, o pequeno pode agarrar-se
ainda mais à sua mãe e comportar-se como se não quisesse
crescer, ou melhor, pelo contrário, proceder de forma
agressiva e invejosa e manifestar uma atitude constante
ao longo de sua vida de tentar superar aos demais.
Os favoritismos e preferências que os pais manifestam,
freqüentemente de forma inconsciente, por um dos filhos
pode dar origem a sentimentos de ciúmes nos outros
irmãos. Do mesmo modo que, o incentivar a competição
excessiva entre os irmãos pode favorecer a aparição de
ciúmes.
NÃO FAÇA COMPARAÇÕES ENTRE OS IRMÃOS
Do mesmo modo, a dependência ou necessidade excessiva de
um dos pais, normalmente a mãe, pode originar
sentimentos de ciúmes pelo outro progenitor que é
considerado como um rival. Este tipo de ciúmes costuma
aparecer naqueles casos de mães excessivamente
protetoras, que não deixam a criança desenvolver sua
autonomia.
PERMITA A SEU FILHO SER AUTÔNOMO
Finalmente, a origem dos ciúmes pode, em alguns casos,
situar-se nos sentimentos de insegurança e inadaptação
da criança. Estes sentimentos de insegurança costumam
ser conseqüência de ter se sentido recusado ou
ridicularizado na infância ou de uma educação
excessivamente negativa baseada no repúdio e na crítica
severa por parte dos pais.
OS ELOGIOS SÃO UMA GRANDE ARMA PARA QUE SEU FILHO SE
SINTA SEGURO
O que podíamos ter feito que não fizemos para evitá-los?
A "inveja infantil" é um perigo que não pode ser evitado
completamente nas famílias. Representa um estado
relativamente normal no desenvolvimento da criança.
Quando esta crise, normal no processo evolutivo, for
superada, a criança volta a sentir-se tranqüila e avança
em seu processo pessoal de maturidade.
Entretanto em alguns casos podem constituir um traço
permanente e especialmente intenso na evolução da
criança cujo caso pode ser sintomático de problemas
emocionais mais complexos e requerer um tratamento
especial.
Em qualquer caso, os pais podemos tomar uma série de
medidas para facilitar a passagem de nossos filhos por
esta etapa e sua superação sem que fiquem seqüelas
permanentes na personalidade da criança. Por isso, vale
a pena fazer todos os esforços necessários para
evitá-los ou, ao menos, diminuir seus efeitos.
EM EDUCAÇÃO TAMBÉM É MELHOR PREVENIR QUE REMEDIAR
Por exemplo, ante o nascimento de um novo irmão, é
importante preparar a chegada do bebê. É conveniente que
a criança saiba com antecipação que está a ponto de ter
um irmão e ir acostumando-o à idéia. Deste modo, a
chegada do novo irmão deve acarretar as menores
alterações possíveis na vida da criança. Não é o momento
de mudar-lhe de quarto, nem de que ceda seu berço ao
irmãozinho, nem tampouco de que ingresse na escola
infantil. Se estas mudanças forem necessárias convém que
as previna e as leve a cabo muito antes de que o bebê
nasça.
Por outro lado, é importante que a criança não se sinta
"abandonada" durante o tempo que a mãe está na
maternidade. Convém explicar-lhe com antecipação que sua
mãe terá que ausentar-se por alguns dias e dar-lhe a
segurança de sentir-se atendido e querido.
NÃO BASTA QUERER-LHE BEM; DEVEMOS DEMONSTRÁ-LO
A volta da mãe com o recém-nascido constitui também um
momento importante. Geralmente chega em casa carregada
(todos sabemos "a quantidade de apetrechos" que
acompanham um recém-nascido), esgotada e preocupada; e
se a criança maior "entra no meio" muitas vezes recebe o
primeiro grito "por causa de seu irmão". Não é um bom
começo.
Pode ser aconselhável que a criança maior não esteja
presente nesse momento em que toda a atenção gira em
torno da chegada do irmão. Seria mais oportuno trazer a
criança algumas horas mais tarde quando o bebê já foi
acomodado e a mãe estiver mais descansada. Neste momento
deve demonstrar-lhe fisicamente seu afeto, pegando-lhe
nos braços e abraçando-lhe.
Também é aconselhável fazer com que o irmão mais velho
participe dos cuidados com o recém-nascido. Desta forma
sentirá que este lhe pertence. Não lhe distancie
constantemente do bebê por medo que o machuque. Se você
repete isso constantemente, só estará dando-lhe
"idéias". Deixe-lhe que a ajude, que lhe pegue em seus
braços, mas com naturalidade, sem impô-lo.
Evite dar importância demasiada ao recém-nascido e falar
todo o tempo dele. Procure, se possível, dar-lhe a
refeição e banho quando o maior estiver ausente ou já
estiver dormindo e reserve os mimos ao pequeno para
quando o maior não possa vê-los. Tampouco se esconda se
vai dar-lhe de mamar no peito, senão a criança o viverá
como algo proibido. Se tem que dar-lhe o peito quando o
maior está presente, chame-o e peça-lhe que se sente a
seu lado porque vai contar-lhe uma história. Desta forma
seu filho perceberá que está atendendo a ele e não
apenas a seu irmão.
DEIXE-LHE QUE A AJUDE
Do mesmo modo o pai deve prestar especial atenção e
carinho a criança neste momento e "cuidado" com as
visitas, que ficam extasiadas frente ao pequeno, e com
os presentes para o recém-nascido. Em alguns casos pode
ser aconselhável ter em casa pequenas guloseimas para
dar ao filho mais velho quando as visitas trazem um
presente para o seu irmãozinho.
O que é que ainda estamos a tempo de fazer?
Se aparecem os ciúmes, deve-se ao menos ter claro o que
não se deve fazer: deve evitar as medidas de castigo ou
o brigar com ele e aborrecer-se por este motivo, pois
não conseguiria senão confirmar à criança seus medos e
ansiedades de que por culpa de seu rival perdeu seu
carinho. Em todo caso, a única coisa que conseguirá
através do castigo será que a criança não manifeste seus
ciúmes. Mas o ciúmes reprimido será mais forte e
prejudicial para a criança do que se tivesse podido
exteriorizá-los.
O CASTIGO NÃO COSTUMA DAR BOM RESULTADO
Isto não quer dizer que você deve permitir que através
de suas impaciências, aborrecimentos, ou outras
manifestações de ciúmes, consiga toda a atenção e
dedicação dos adultos. Se o faz terá alcançado seu
objetivo e persistirá nesta atitude.
Deste modo, um erro freqüente dos pais é aproveitar o
nascimento de um novo irmão para distanciar o mais velho
levando-lhe a uma escola infantil, ou confiar-lhe aos
cuidados de pessoas estranhas à família. Se estas
mudanças são necessárias deverá prevê-las e levá-las a
cabo algum tempo antes do nascimento do novo irmão.
Em linha gerais, a melhor forma de proceder consiste em
que você não dê, ao menos em aparência, a menor
importância às manifestações de ciúmes e pelo contrário
preste mais atenção à criança e lhe faça sentir seu
carinho em todos os momentos que for possível.
Seu filho necessita sentir-se querido e necessita que
você o demonstre fisicamente, com beijos e apertões. É
importante que a criança receba suas manifestações de
carinho na presença de seu irmão menor.
O ABRAÇÃO DE CARINHO COSTUMA SER MUITO EFETIVO
Quando ver seu filho dirigir-se para seu irmãozinho com
um gesto significativo e algum objeto perigoso entre
suas mãos, em lugar de gritar peque-o nos braços e
apodere-se do objeto, mostrando-lhe carinho e dando-lhe
a impressão de que pegou-o não para impedir uma má ação
mas para mimar-lhe e para brincar.
Passado um tempo, quando a criança está alegre e
tranqüila, diga-lhe, em particular e em um momento de
especial confiança e com delicadeza que compreende seus
sentimentos e que deve ficar tranqüilo pois papai e
mamãe lhe querem tanto como antes e não vai perder vosso
CARINHO.
Se seu filho aproveita um descuido para esvaziar a pasta
de dentes pela almofada, procure controlar sua raiva.
Espere que passe um tempo para mostrar-lhe que o que fez
está errado e de que está segura de que ele não voltará
a repeti-lo.
Se ele começa a cuspir a comida, arme-se de paciência e
simplesmente retire o prato, mas sem que veja que se
importa muito. Se for capaz de rir, melhor.
É especialmente efetivo buscar situações em que a
criança possa passá-la bem junto a seu irmão. Por
exemplo, que um dos dois, a mãe ou o pai, brinquem com
as duas crianças ao mesmo tempo. De forma que quando a
criança vê seu irmãozinho lembre como passaram bem
juntos com seus pais em lugar de percebê-lo como um
rival que lhe tira vosso carinho.
PROCURE SITUAÇÕES EM QUE A CRIANÇA POSSA SENTIR-SE BEM
JUNTO A SEU IRMÃOZINHO.
Quando já forem maiorzinhos é aconselhável procurar
situações em que os irmãos possam "fazer equipe" e
tentar ganhar de papai no futebol ou de mamãe na
torrinha.
Por outro lado, dado que o ciúmes freqüentemente é
conseqüência de sentimentos de insegurança e inadaptação,
deverá colocar especial cuidado em reforçar a
auto-estima de seu filho, em valorizar-lhe
positivamente.
Terá que ajudar-lhe a ter uma imagem positiva de si
mesmo, elogiando-lhe e prestando especial atenção àquilo
que faz bem. Interesse-se por seus pequenos êxitos,
proponha metas que seja capaz de alcançar, e reforce-lhe
especialmente por aqueles êxitos dos quais é capaz e seu
irmão todavia não.
Dê a seu filho mais velho alguns "privilégios" pelo fato
de ser maior:
- deitar um pouco mais tarde;
- ir com papai e mamãe a lugares que seu irmão não pode
ir;
- facilitar-lhe uma caixa onde possa guardar seu jogos
sem que seu irmão os pegue ...
VALORIZE SEU FILHO POSITIVAMENTE
Finalmente, deve evitar os favoritismos e comparações
entre os irmãos. A cada filho deve aceitá-lo como é,
menino ou menina, inteligente ou desajeitado ... Quando
os pais fazem comparações entre os irmãos podem provocar
na criança fortes sentimentos e ressentimentos por seus
pais e irmãos.
Em geral, quanto mais afetuosos se mostram os pais com
seus filhos, menos perigo correm de que se tornem
ciumentos. Se todas as crianças da família estão
satisfeitas pelo afeto que seus pais lhe dão, não terão
a inclinação a sentir ciúmes de seus irmãos.
ACEITE A CADA FILHO COMO É E TRATE-O COMO QUER QUE ELE
SEJA
Por outro lado, é melhor que os pais não tomem parte nas
pequenas brigas entre os irmãos. Se intervém, deve ser
para deter a briga mas sem tentar buscar culpados nem
tomar partido.
Em alguns casos não se podem encontrar as causas dos
ciúmes e cabe suspeitar que se devem a problemas
pessoais mais complexos e profundos. Nestes casos
devemos recorrer a um psicólogo profissional para um
estudo mais profundo dos sentimentos da criança.
Do livro "Como resolver situações cotidianas de seus
filhos de 0 a 6 anos"
TERESA ARTOLA GONZÁLEZ é Doutora em Psicologia
pela Universidade Complutense de Madri. Desenvolveu um
amplo trabalho de pesquisa e docente no campo da
Psicologia infantil como Professora do Departamento de
Psicologia Evolutiva e da Educação da Universidade
Complutense de Madri durante mais de dez anos. É autora
de diversas publicações em sua maior parte dedicadas aos
problemas de aprendizagem, sua avaliação e tratamento.
Atualmente desempenha seu trabalho no campo da
assessoria familiar. A sua experiência profissional se
une sua experiência direta como mãe de quatro filhos.
Fonte: Portal da Família
Site:
www.portaldafamilia.org
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