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30/10/2006
Entrevista com IÇAMI TIBA Veículo: Revista Made in
Japan
Data: 01/09/2004
Como Educar os Filhos
O psiquiatra e escritor Içami Tiba é o autor brasileiro
que mais vendeu livros em 2003. Seu best seller, Quem
Ama Educa, está na 114a edição, com 500 mil exemplares
vendidos. O sucesso dos seus livros se deve à maneira
simples com que escreve, ilustrada de exemplos que
servem para o dia-a-dia dos pais, muitas vezes inseguros
na educação dos filhos. No seu consultório no bairro do
Itaim, em São Paulo, retratos da esposa e dos filhos e
um presente do neto enfeitam constantemente sua estante.
É lá que ele recebe seus pacientes, a grande maioria em
busca de boas orientações para a estrutura familiar e
educação dos filhos. A convite da Made in Japan, Tiba
deu dicas específicas para o pai nikkei, que vive um
dilema, pois herdou a rigidez da tradição japonesa, mas
precisa conviver com a liberdade dos filhos.
Qual o papel do pai na educação?
Muitos japoneses e seus descendentes no Brasil ainda
seguem uma estrutura familiar ultrapassada. Por esse
modelo, o pai deve apenas sustentar a casa.A educação
dos filhos fica sob a responsabilidade da mãe. O modelo
do pai centralizador e autoritário, no entanto, já não
supre mais as necessidades dos dias de hoje.
Pais durões, filhos rebeldes
As novas gerações querem romper com a imagem do nikkei
tímido e introspectivo. Mas o fazem de uma forma
radical: adotam cabelos coloridos, piercings, tatuagens,
roupas e comportamentos extravagantes. É o jeito, porque
não dá para ir mudando aos poucos, tanto os pais quanto
os filhos são muito duros. Nada contra a rigidez, que é
um traço nikkei. Mas não estamos mais em uma geração de
mandar, mas de pedir colaboração e formar uma equipe.
De quem deve ser a palavra final?
Nesse novo sistema de cooperação, não há um detentor da
palavra final que decidirá que rumo a família deve
tomar.No sistema antigo, a última palavra era do pai.
Masno esquema moderno, é de quem tiver mais conhecimento
sobre a questão (pode ser o pai, a mãe, o filho ou
pessoas de fora). No sistema em equipe, aquele que
descobre o caminho é que ensina os outros. Por isso, a
mãe ou o pai não podem submeter sua autoridade à do
outro. Quando o filho desrespeita a mãe - e ela tem
razão - não precisa chamar o pai para conversar com o
filho. Ela deve resolver na hora o que está acontecendo.
Proteja sem ser autoritário
Violência e drogas são ameaças constantes aos jovens,
que estão cada vez mais vulneráveis e expostos. Por isso
é mais fácil um adolescente com tempo livre aprontar
alguma. Ele fica receptivo.A gente pode dizer que cabeça
vazia é oficina do diabo mesmo.
Os dekasseguis devem levar os filhos ao Japão?
Os problemas com os adolescentes brasileiros são
potencializados no Japão.Eles ainda não podem trabalhar
nas fábricas e sofrem discriminação e ijime na escola. O
melhor seria deixá-los estudando no Brasil. Mas se fizer
só isso, o jovem fica com tempo de sobra. O melhor é
trabalhar para ganhar senso de responsabilidade ou
realizar outras atividades. E, de preferência, que fique
sob a guarda da mãe.
Espelho, espelho meu
Não force o filho a ser a sua própria imagem. Os pais
acreditam que estão sempre certos e querem impor seus
pontos de vista.A dica importante é: respeitar os
valores dos filhos.
Não se importe tanto com o que os outros pensam
Todos cometemos erros. Não fique com vergonha do que os
filhos fazem ou vão fazer. No Japão, se um membro da
família vai preso, ninguém vai visitar. Ele vira a
vergonha da família. No Brasil, os familiares brigam com
a polícia que maltrata o filho que está preso. São casos
extremos, mas não dá para ficar dando tanta importância
para o que os outros vão dizer e anulando o que a gente
pensa sobre o assunto.
Não engula sapos
O nikkei deveria falar mais, se manifestar mais e não
simplesmente aceitar e engolir sapos.Ainda hoje, o
nikkei engole muito sapo. Na educação, se um filho
reagir, deixe-o reagir. Porque o filho que reage está
sendo mais saudável que o pai que engoliu sapos. Deve-se
contestar. O pai chega para o filho e fala "mas você não
podia ter respondido para a professora","mas ela estava
errada, pai","não importa, ela é professora". O que
valeu aí? Não foi quem está certo ou quem está errado,
só a hierarquia.
Não exagere nos mimos
O pai nikkei tem o costume de ou não dar nada, ou dar
tudo. Essa geração de nisseis é muito mole com os filhos
no sentido financeiro. Os filhos deveriam ser educados
para merecer o que recebem. O pai nikkei vai almoçar,
come o prato mais barato para guardar dinheiro e dar o
tênis mais caro para a criança. E aí, às vezes, o filho
é tão abusado que nem valoriza o tênis. Os pais não
deveriam se sacrificar em nome dos filhos, mas, sim,
desenvolver os filhos para que eles se tornem
independentes.
PERFIL
Extrovertido, desembaraçado e articulado. Içami Tiba, 63
anos, possui o perfil oposto ao estereótipo do nikkei -
e é isso mesmo que ele quer transmitir. Formado em
medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo (FMUSP) e psiquiatra pelo Hospital das
Clínicas, o nissei trilhou uma carreira de sucesso ao se
dedicar à educação de crianças e adolescentes.
Quem conhece sua carreira mal consegue imaginar que Tiba
queria se dedicar apenas às consultas itinerantes, à
moda antiga. Foi sua esposa, Maria Natércia, quem o
incentivou a transmitir seus conhecimentos de forma mais
ampla."Minha mulher dizia que eu não me valorizava",
lembra. O "empurrãozinho" deu tão certo quanto o
casamento, que originou 3 filhos e já chega aos netos.
Mas, para isso,Tiba teve de percorrer um trajeto que,
ainda hoje, ele observa muitos dos seus pacientes
trilharem: o enfrentamento das regras sociais japonesas.
Seu pai, um monge budista, seguia as tradições
japonesas, inclusive o miai, o casamento arranjado. Foi
assim com seus dois irmãos mais velhos."Saí de casa para
não aceitar o miai", conta. Hoje, possui uma grande
gratidão pela colônia japonesa, ressaltando que sempre é
lembrado para fazer palestras e participar de eventos
nikkeis.
Fonte:
www.tiba.com.br
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