| |
11/12/2006
Os Feitos e Efeitos
Colaterais do Ciúme
"Todos nós somos ciumentos em maior ou menor grau. A
diferença está em como cada um encara este sentimento" (Willy
Pasini).
O ciúme está presente nas mais diversas interações
humanas, mas tem recebido pouca atenção enquanto objeto
de estudo. Talvez, por não estar inserido na categoria
das emoções "primordiais". O verbete "ciúme" vem do
latim zelumen (celumen), e tem sua origem na raiz grega,
zelos, que significa fervor, calor, ardor ou intenso
desejo, e por sua vez fundiu os vocábulos inglês jealous
(ciúme) e francês jalousie (ciúme) que, além de inveja,
despeito, indica também veneziana, persiana. Estes
últimos termos - especula o psiquiatra Nils Retterstol,
da universidade de Oslo/Noruega - se deve ao fato de
algum marido jaloux (ciumento) ter observado sua uma
mulher por trás da jalousie (fendas horizontais uma
sobre a outra), na intenção de surpreendê-la em
intercurso sexual com outro homem.
Neste texto, o ciúme será focalizado, especificamente,
na dinâmica do relacionamento conjugal. Na sua natureza
paradoxal, quando moderado, o ciúme pode manter um casal
comprometido. Diz o senso comum que "o ciúme é o tempero
do amor". Como também pode expor os parceiros a
situações extremas de perigo. Embora, menos freqüente
nos dias hoje, ainda assim, é o ciúme dos homens, mais
do que das mulheres, que coloca em risco a integridade
física, por vezes fatal, das suas parceiras. Quando em
sua poção concentrada, o ciúme é conhecido como a
síndrome de Otelo, ciúme psicótico, paranóia conjugal e
síndrome do ciúme erótico.
Quando tomado pelo ciúme, o indivíduo desencadeia um
complexo de emoções a exemplo da raiva, fúria,
humilhação, medo, ansiedade, tristeza e depressão. A
perseguição do ciumento é tão incômoda quanto
desconcertante é ouvir do(a) parceiro(a) que ele(a) não
sente ciúme. Isto pode ser interpretado como ausência de
bem querer, mesmo que suas atitudes cotidianas
contradigam essa fala; em outras palavras, mesmo que se
diga da "boca para fora". Uma vez que o ciúme é inerente
ao relacionamento, lhe cabe ser mais bem administrado,
porque sua falta ou seu excesso é altamente destrutivo
para o equilíbrio do casal.
Alguns teóricos consideram o ciúme uma emoção oriunda da
insegurança, que tem como base à baixa auto-estima, um
sintoma de imaturidade ou defeito de caráter. Assim
sendo, de acordo com essa posição, se espera do adulto
de auto-estima elevada, de maturidade e solidez
psicológica que não apresente esse sentimento. Suponho,
que um indivíduo com tais características possa lidar
melhor com o próprio ciúme ou com situações provocativas
que o outro procure despertar. No entanto, essa postura
consiste num traço, mas não necessariamente em uma
pré-condição para uma personalidade madura, integrada.
Às vezes, aqueles que se mostram controlados, na
realidade são pessoas travadas, isto é, encouraçadas,
emocionalmente frias.
Socialmente se admite o apego às coisas materiais. Prova
disso é que, geralmente, somente se empresta, por
exemplo, livros, cds, etc., a pessoas próximas que, de
alguma forma, deixam implícito que terão cuidados com
esses pertences. Nesse caso, o ciúme equivale ao zelo em
preservar aquilo que se gosta ou que é útil. Então, por
que não é igualmente aceitável que se tenha ciúme por
pessoa(s)? Quando se trata de gente, o cuidado não
consiste no empréstimo (embora tenham os adeptos do
swing - troca de casais - que devem negociar os seus
limites, e isso, de uma certa forma, é um zelo), mas, do
risco potencial em decorrência da atração ou sedução
mútua de uma ou de ambas as partes envolvidas, que
ameaça a perda do objeto de amor. Enfim, o ciúme pelas
coisas é encarado como natural, mas em relação à pessoa
adquire uma conotação negativa. Parece vergonhoso se
dizer ciumento, como se isto fizesse do sujeito um ser
incompleto ou "menor".
Em 1922, Sigmund Freud (Alguns mecanismos neuróticos no
ciúme, na paranóia e no homossexualismo. Obras
Completas. Vol. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1989)
classificou o ciúme em três tipos: (1) Competitivo ou
normal: essencialmente um sentimento de pesar, devido ao
receio de perder o objeto amado, e da ferida narcísica,
como também da inimizade contra um rival bem sucedido;
(2) Projetado: deriva de pessoas cuja própria
infidelidade real ou de impulsos que sucumbiram à
repressão; (3) Delirante: é o sobrante de um
homossexualismo que cumpriu seu curso e toma sua posição
entre as formas clássicas da paranóia. Como se vê, o
próprio Freud reconheceu a vertente normal do ciúme.
Nesse sentido, David M. Buss (A paixão perigosa: Por que
o ciúme é tão necessário quanto o amor e o sexo. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2000: 40), diz: "o ciúme se expressa
em pessoas perfeitamente normais que não mostram nenhum
sinal de neurose ou imaturidade".
Mas existiria um tipo ideal de relacionamento de casal?
O modelo que está posto, com todas as dificuldades que
lhe são peculiares, é o que se engendrou no mundo
capitalista ocidental. Da mesma forma que, em outras
culturas, com diferentes tradições, tem problemas comuns
em sua estrutura. Nas histórias de ciúme, geralmente, se
critica o comportamento do ciumento, e pouco ou nenhuma
referência se faz às atitudes da denominada "a vitima".
Mira y Lopes (Quatro gigantes da alma: o medo, a ira, o
amor e o dever. 15 ed. Rio de Janeiro: Olympio, 1992),
chega a dizer que a dialética do ciúme é sempre intra e
não interpessoal. No meu entender, a visão desse autor
teria fundamento se "a vitima" comprovasse sua
generosidade emotiva, sua sensatez e sanidade mental.
É verdade que existem os ciumentos projetivos e
delirantes que Freud descreveu, mas, os relacionamentos
não ocorrem unilateralmente. Porém, as crítica e
condenação não devem recair apenas sobre o "agressor"
sem levar em conta as provocações diretas ou sutis do
"agredido". Há parceiros que não chegam a ser
complicados ou adúlteros, mas que devido aos seus
bloqueios afetivos não fluem satisfatoriamente na
relação. As mulheres, devido a um "sexto sentido" mais
aguçado, percebem rapidamente essa "não entrega". Isso
as deixam inseguras de que seus parceiros não as amam e,
por isso, não passam cumplicidade, emoção na relação.
Mesmo que independentes economicamente, elas tendem a
não discutir com seus parceiros essa falta, pois receiam
parecer infantis, exigentes ou por demais carentes.
Ninguém completa plenamente o outro. Tem que se aprender
a lidar com essa falta e tentar desenvolver as
características que julgam importantes para seu
relacionamento e que estão, possivelmente, latentes no
outro. A pressão social para o casamento e para a
reprodução e/ou a carência afetiva conduzem as pessoas a
uma convivência a dois para a qual não estão preparadas.
Nessa perspectiva, quero chamar a atenção para um tipo
facilmente identificável nesta realidade, que quase
sempre é o pivô dos dramas de ciúme. É tipo homem
inseguro que, apoiado pela cultura machista de direito
irrestrito ao macho, procura se auto afirmar se lançando
em conquistas. Mesmo acompanhado, se insinua para outras
mulheres, transformando, assim, seu sentimento de
inadequação em ações perversas, grosseiras ou sutis que
mina a autoconfiança da parceira.
Para este sujeito a "crise de ciúme" da mulher somente
aparentemente o incomoda, pois funciona como um
termômetro para que ele auto-avalie o quanto é "querido"
e "desejável". Uma coisa é admirar despretensiosamente
os atributos sejam físico, intelectual ou espiritual de
uma pessoa; uma outra é desejá-la e comunicar isso
através de palavras ou, o que é pior nesse clima de
produção de ciúme, com sinais, expressões não verbais,
"olhar de alcova". Esse indivíduo é um expert nessa
modalidade, uma vez que os indícios são instantâneos e
subjetivos; em caso de protesto, ele pode se defender
dizendo: "Eu falei ou fiz alguma coisa?". E a parceira
fica como ciumenta descabida, cuja reação serviu lhe
apenas para denunciar sua "insegurança".
Esse desrespeito à conta gota, quase sempre introjetado
como mágoa, em breve será o ácido corrosivo da
auto-estima. Esse tipo deixa implícito a mensagem de que
é o homem, ou melhor, o macho, e que deseja as demais
mulheres. Enfim, de que sua parceira não o preenche e
que nem é tão especial em sua vida. A submissão, o medo
da violência física faz com que a mulher não reaja a
essas perdas. O condicionamento em mostrar fidelidade,
eu diria canina, faz com que a mulher abra espaço para
esse jogo. Quando diante do parceiro, "tímida" e
"santa", mal levanta o olhar para um outro homem. Passa
a idéia de que ele é o único homem a quem ela é capaz de
se entregar, amar. No ato sexual massageia o ego dele em
detrimento de suas necessidades.
Mesmo que o homem não dê segurança e/ou satisfação
afetiva/sexual, para a mulher, não é muito fácil para
ela se compensar lá fora. Geralmente, quando se rebela
contra esse tabu, tem como objetivo resgatar o seu
prazer e sua auto-estima que estavam negligenciados.
Embora não seja esta a melhor forma de resolver a
situação. Dificilmente, os homens aceitam a traição da
parceira que, antes de qualquer coisa, os revela como
fracassados no papel de marido. Para a mulher, se não é
fácil aceitar o marido adúltero, pelo menos ela se
permite ou é forçada a conviver com essa revelação.
O rótulo de mulher adúltera é tão forte que elas chegam
ao consultório, pelo menos na minha experiência, se
sentindo prostitutas. Para aliviar o alto nível de
angústia, muitas vezes eu pergunto quanto elas estão
cobrando por seus serviços. Elas tomam um susto e
começam a elaborar a questão num outro prisma. O
adultério feminino quase sempre se dá pelo envolvimento
afetivo. Assim, elas se deixam possuir pelo sentimento
de paixão para que seu desejo seja viabilizado, mesmo
assim, não é raro algum sentimento de culpa.
De modo geral, as pessoas não aceitam suas limitações,
sempre se acham mais dignas de parceiros mais
qualificados em termos de prestígio profissional e nível
social, etc. Têm a fantasia do "par" perfeito. Devido à
permissividade social, não é preciso que a parceira
esteja em falta com o marido para que esse se envolva em
processo de traição. Para isso basta ter oportunidade.
Um outro fator que colabora para esse comportamento, é
que o sexo para o macho está dissociado do afeto. O que
lhe permite transitar mais habilmente nas suas
aventuras. Todo prazer que vier para ele é lucro, por
isso investe com mais ousadia, e confirmação social de
sua masculinidade. Caso não tenha sucesso, a mulher em
casa dá conta de sua frustração.
Evidentemente, a percepção do ciúme como patológico não
ignora um fato profundo a respeito do ciúme como
importante defesa a uma ameaça real. O ciúme nem sempre
é uma reação a uma infidelidade descoberta. Pode ser uma
resposta antecipada aos direitos de posse para impedir
que a infidelidade ocorra. Com bastante propriedade,
Buss (op. cit., 2000: 21) afirma: "para etiquetar o
ciúme como patológico simplesmente porque um cônjuge
ainda não se desgarrou não leva em conta o fato de que o
ciúme pode adiantar-se a uma infidelidade ainda
emboscada no horizonte da relação". Ou seja, são
"leituras" sutis que sinalizam para a prática ou
potencial de intenção de adultério do (a) parceiro (a).
O espectro da própria ou da infidelidade do outro
raramente deixa de cercear a vida do casal, enquanto
realidade ou desejos fantasiados. Marina Gambaroff
(Utopia da fidelidade. Porto Alegre: Artes Médicas,
1991: 37) revela que "a infidelidade pode ser usada como
defesa contra a fidelidade e esta, contra a
infidelidade". Assim, pode-se afirmar que a ansiedade
envolvida nesses processos não se diferencia de maneira
qualitativa, mas quanto à direção ou defesa que podem
tomar. Atrás de rígidas reivindicações de fidelidade
podem encontrar-se forte dependência às normas sociais,
tendências de simbiose, medos de contato, incapacidade
de auto-realização.
Ainda, segundo Gambaroff (idem), se por um lado, o
desejo simbiótico pode se manifestar numa fidelidade
exagerada, excessivamente apegada que persegue o outro;
por outro lado, o medo fantasiado de uma fusão total com
o parceiro é tão grande que pode levar à infidelidade,
como recurso de segurança para se manter o controle da
relação. Isso justifica as atitudes de sujeitos
imaturos, associado ao abuso de poder, perversidade e
mau caratismo. Enfim, o infiel foge da possibilidade de
se colocar por inteiro na relação e, consequentemente,
de arriscar-se nos conflito e confrontos da convivência
diária. Logo, a infidelidade tem como função adiar ou
evitar que o relacionamento se torne, sem sombra de
dúvida, um encontro.
Historicamente, o casamento por amor, norteado pela
igualdade dos gêneros, é um acontecimento recente. Não
era nem sequer sonhado na Antigüidade e na Idade Média.
No entender de Volkmar (apud Marina Gambaroff - In
Indifelidade. Orgs. G. P. Costa e G. Katz. Dinâmica das
relações conjugais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992),
por mais estranho que pareça, o capitalismo e o amor se
pertencem, e que o amor sexual individual somente surgiu
a partir da formação da burguesia. A moral vitoriana,
extremamente puritana, na realidade exigiu demais de
ambos os parceiros, e os afunilou cada vez mais na
estreiteza da família nuclear. No ponto de vista de
Herbert Marcuse (apud Gambaroff, idem), a liberação
política da sexualidade, que deveria servir para
emancipação dos indivíduos, degenerou para um tipo de
impedimento à liberdade individual. Comercializada pela
mídia e louvada como produto, a sexualidade
transformou-se numa variante de exigências de
desempenho, que encontrou seu lugar até na vida intima
das pessoas.
Ainda nessa perspectiva, Herbert Marcuse (Eros e
civilização: uma interpretação filosófica do pensamento
de Freud. 8 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981), chama a
tenção para o fato de que a passagem do mundo infeliz
para o feliz passa pela erotização de tudo à nossa
volta, não no sentido do sexo vulgar, mas da
desvalorização da essência do mito. Mas do impulso vital
do homem para a curiosidade e ligações de amor, amizade,
e do conhecimento de si mesmo e do seu universo. Quase
todo élan vital (grifo nosso) do homem é capturado pelo
trabalho, o que torna cada vez mais impessoal seus
relacionamentos, que o deixa ilhado no seu egoísmo,
narcisismo e vendo outro como a um inimigo em potencial.
Finalmente, este momento que vivemos atualiza a
afirmação de Hobbes (apud Renato J. Ribeiro: Hobbes: o
medo e a esperança. In Os clássicos da política. Org. F.
C. Weffort. São Paulo: Ática, 1991), de que os homens
são tão absolutamente iguais que, não sabendo o que o
outro deseja, fazem suposições, entre elas a de
vencê-lo. Assim a guerra se generaliza.
Por Valdeci Gonçalves da Silva
|
|