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02/01/2007
O Relacionamento
Mãe-Filho nos primeiros meses
A relação mãe-filho, tão importante para o
desenvolvimento do ego da criança, se inicia bem cedo.
Neumann salienta que sendo o ser humano incapaz de ser
independente logo após o nascimento, diferentemente dos
demais animais, prorroga sua fase embrionária para além
do nascimento. A fase embrionária compreende, então, os
9 meses intra-uterinos e mais 1 ano pós-uterino. Nesta
fase, a criança vive o inconsciente da mãe, está ligada
à mãe fisicamente e psicologicamente, dependendo dela
para tudo. Após esta fase, a criança inicia seu processo
de desligamento da mãe, juntamente com a formação e
fortalecimento do ego.
Para a Psicologia Analítica, a consciência surge a
partir do inconsciente, primeiramente como pequenos
sinais fugazes, depois como pequenas ilhas que surgem ao
longo do oceano até formar um arquipélago.
O Self, como centro da personalidade total, é
pré-existente ao ego e toda a atividade psíquica é
ordenada por ele. O Self delega ao ego a
responsabilidade de coordenar a consciência e a relação
da personalidade com o mundo exterior. Sua principal
tarefa será atender as exigências do mundo interno e
externo, dando sentido e continuidade, coesão e unidade
à personalidade.
Na relação mãe-filho, nos primeiros meses, a qual
Neumann chamou de “relação primal mãe-filho”, a criança
vive e experimenta o corpo da mãe como sendo ela mesma e
o mundo. Não possui consciência capaz de discernimento,
percepção e controle do seu próprio corpo. Entretanto,
apesar desta fase ser ausente de consciência, é possível
a ocorrência de experiências. São experiências
vivenciadas sem a dicotomia sujeito-objeto, mundo
interno-externo, tal como ocorre com o adulto, mas são
experiências vivenciadas através da união de mãe e
filho, já que o filho está indiferenciado tanto do corpo
como da psique da mãe. Assim como aparece a fome e
instala-se o desconforto, aparece o seio nutridor que
restaura o conforto. Os dois sentimentos, para o bebê,
emergem da mesma fonte.
Salienta Neumann: “Para a criança nessa fase, a mãe não
está nem dentro nem fora; para a criança os seios não
fazem parte de uma realidade separada de si e externa;
seu próprio corpo não é experimentado como seu. Mãe e
filho continuam tão interligados como na fase uterina,
como se formasse uma unidade; só que a unidade que
formam é dual.”
Para a mãe esta fase também é unitária, mas como a mãe
já tem um ego desenvolvido, e em sua personalidade total
existe o eu e o outro, o eu e o mundo, somente uma parte
dela fica mergulhada nesta unidade, enquanto que para a
criança o mundo da mãe é o mundo total, é seu próprio
Self.
A criança vive esta fase com um mínimo de tensão e um
máximo de segurança. Não existem conflitos porque não
existe o eu-tu; só existe o paraíso no continente da
mãe. O mundo do adulto, entretanto, é caracterizado pela
tensão e conflito, onde o ego fica entre o Self e o
mundo externo tentando equilibrar-se entre os dois e não
se identificando com nenhum dos lados.
É necessário haver uma base sólida edificada com
confiança e segurança durante a relação primal, onde o
ego poderá encontrar o caminho do desenvolvimento sadio.
A medida em que a criança vai se desenvolvendo dentro da
relação primal, o Self da criança, que é percebido como
se fosse a própria mãe, vai gradativamente se deslocando
para o interior da criança. Neumann observa que “A
remoção do Self da mãe do campo da realidade unitária
acompanha a dissolução gradual da união dual
característica da relação primal.”
Esta fase final da relação primal caracteriza-se pela
consolidação do ego e início do desenvolvimento da
consciência. O estabelecimento de uma relação entre o
ego e o Self também se faz presente e é de extrema
importância para o desenvolvimento da psique. Embora
este desenvolvimento ocorra gradualmente, há uma forte
tendência, na criança, de manter-se nesta relação
simbiótica com a mãe, porque depende dela materialmente
e psicologicamente. Uma ruptura abrupta nesta relação
causará danos irreparáveis ao desenvolvimento da
criança. A ausência da figura materna poderá provocar
uma perda de contato com o mundo e deficiências na
formação do ego. Para Neumann “A relação primal é a
expressão de uma capacidade de relacionar-se de maneira
total, como fica dramaticamente demonstrado pelo fato de
que, para uma criança, a sua falta pode provocar
distúrbios emocionais de ordem tal que culminam em
apatia, em idiotia e até mesmo a morte. A perda da mãe
representa muitíssimo mais do que apenas a perda de uma
fonte de alimentos. Para um recém-nascido – até mesmo
quando continua sendo bem alimentado – equivale à perda
da vida. A presença de uma mãe amorosa que fornece
alimentação insuficiente não é de forma alguma tão
desastrosa quanto à de uma mãe pouco afetuosa que
fornece alimento em abundância.”
As características da mãe ideal da relação primal são
aquelas que emanam do maternal contido na Grande Mãe, ou
seja, é a pessoa que alimenta, protege, dá segurança e
permite uma ligação afetiva com a criança. A mãe pessoal
é movida, inconscientemente, pelo arquétipo da Grande
Mãe, que possibilita, ao filho, um desenvolvimento
saudável, capacitando-o a enfrentar o mundo com
segurança. Os desvios tanto no bom quanto no mau
sentido, causarão efeitos danosos. A maneira como a mãe
lida com os aspectos da maternidade por exemplo,
dispensando atenção em demasia ou negando atenção;
ausentando-se mesmo que involuntariamente; estado
psicológico desfavorável e juntando-se a tudo isso, a
qualidade das projeções arquetípicas do filho, poderão
trazer problemas na formação da personalidade da criança
muitas vezes irremediáveis.
A situação psicológica da mãe é, de fato, muito
importante para o desenvolvimento da criança, porque ela
vive numa fusão também psicológica com a mãe. Jung se
referia a este estado como uma verdadeira “participation
mystique”, para Neumann é um estado onde “o filho
inconscientemente “lê” o inconsciente da mãe na qual
vive, da mesma forma que – normalmente – a mãe exerce
uma função reguladora ao reagir inconscientemente à
conduta inconsciente do filho.” Para Jung “A portadora
do arquétipo é, em primeiro lugar, a mãe pessoal porque
a criança vive, inicialmente num estado de participação
exclusiva, isto é, numa identificação inconsciente com
ela. A mãe não é apenas a condição prévia física, mas
também psíquica da criança.”
Segundo ele, os problemas psíquicos das crianças têm sua
etiologia na psique dos pais. As crianças, até mais ou
menos a puberdade, vivem numa comunhão inconsciente com
os pais, principalmente com a mãe.
A confiança que o ego da criança, em formação, deposita
no Self representado pela mãe, permitirá à criança
experimentar e enfrentar o mundo sem medo. A mãe-Self, a
Grande Mãe, que apazigua as tensões, que é continente e
protetora, cria condições para que o ego se lance ao
mundo e enfrente os aspectos negativos e integre-os a si
mesmo. Se a passagem do Self, projetado na mãe, para
dentro da criança for feita gradualmente, possibilitando
ao ego manter contato com o Self, formando o eixo
ego-Self, o desenvolvimento saudável da criança estará
garantido.
A qualidade do amor na relação primal estabelecerá a
qualidade das relações do indivíduo com o mundo interno
e externo quando a criança se desligar da mãe. O que
conta nesta relação é a qualidade do amor e não a
quantidade de amor que a mãe dispensa ao filho. O amor
em excesso e possessivo sufoca e gera dependência,
insegurança e incapacidade de lidar com as frustrações.
Quando a mãe inunda o filho com amor, fazendo tudo por
ele, protegendo-o contra as mínimas frustrações acaba
por tornar-se um grande empecilho na vida do filho,
porque este excesso de amor tem um preço e, sem dúvida,
será cobrado pela mãe. As razões para este comportamento
da mãe são várias e no cerne desta dúbia doação
encontram-se conflitos mal resolvidos como problemas com
o marido, por exemplo: não ama o marido ou não é amada
por ele; o marido é bem mais velho; o marido é ausente;
a mãe é viúva, etc.
Uma mãe em uma dessas condições não tem como dar vazão
ao amor que transborda e vê o filho como uma única
saída. Cobre-o de mimos e o rebento corre o risco de
ficar preso à mãe que não o deixa crescer. Também,
salienta Neumann, “Existem mães cuja genuína capacidade
de amar é subdesenvolvida, atrofiada ou envenenada e
que, como compensação de sua anti-realização,
arremessam-se sobre seus filhos não para lhes dar
excesso de amor, mas para preencher seu próprio vazio
através do filho.”
Outros fatores, não menos importantes, influenciam a
qualidade da relação primal, por exemplo; se a criança
foi desejada ou não, se o sexo era o desejado ou não, se
a mãe constela complexo de inferioridade em relação ao
seu próprio sexo, etc.
A criança associa os aspectos negativos da relação com a
mãe como provenientes da mãe-terrível e os positivos
provenientes da mãe-boa, estes dois aspectos estão
contidos no arquétipo materno. O amor excessivamente
sufocante é um aspecto associado à mãe-terrível.
Como vimos, todo arquétipo possui dois aspectos: um
favorável e outro desfavorável; a cada fase do
desenvolvimento do ego haverá uma tendência de manter o
ego fixado num destes aspectos do arquétipo dominante,
ou seja, o arquétipo que dominará a fase seguinte
mostrará sua face positiva como que atraindo o ego para
a mudança de fase e o arquétipo dominante da fase atual
mostra sua face terrível, ameaçando o ego que se apressa
em se deslocar para a fase seguinte. Para Neumann “O
medo que o ego sente do aspecto terrível da fase
aderente demonstra ter um propósito, pois facilita ou
torna necessária a transição; na verdade, esse medo é
mobilizado pelo Self. Em cada estágio do
desenvolvimento, o Self encarna-se num arquétipo,
conquanto não se torna idêntico a ele. Deste modo, sua
manifestação muda de fase para fase; aparece primeiro no
arquétipo da mãe, depois no arquétipo do pai; a seguir,
como Self Grupal, e então como Self individual. Isso
leva o ego a um conflito fundamental.”
Esta dinâmica se repete muitas e muitas vezes e em cada
“encarnação” do Self, num arquétipo, apresenta-se ao ego
com um valor divino. Porém, em cada mudança de fase, o
ego necessita matar aquele aspecto deificado
anteriormente e voltar-se para um novo deus. Esta
atividade gera ansiedade, segundo Neumann o “sentimento
de culpa e sofrimento porque, do ponto de vista da
manifestação mais antiga do sagrado, a manifestação do
estágio superior seguinte do Self é perigosa e
pecaminosa.”
O ego aprende como se desfazer de valores supremos e das
identificações, embora de maneira sofrida.
Considerando estas características do desenvolvimento,
notamos que se faz necessário um ego fortalecido para
suportar o sofrimento, como também, coragem para cometer
um “deicídio”. Se o ego não tem uma base sólida,
construída na base do Eros, jamais poderá completar os
estágios do desenvolvimento e ficará fixado numa base
anterior, na constelação de um complexo. Para Neumann a
base do desenvolvimento humano saudável encontra-se na
relação primal, diz ele: “A relação pessoal posterior da
criança com a mãe, como base de toda relação amorosa
subseqüente, e na verdade de toda relação humana, se
estabelece de acordo com a relação primal. Só o
inquestionável senso de segurança conferido pela
proteção no amor de uma mãe, que capacita a criança em
desenvolvimento a suportar desagradáveis tensões durante
o processo de diferenciação, pode deixá-la apta para
suportar a redução do automorfismo infantil, imposto
inevitavelmente pelo processo de crescimento no mundo e
na sociedade. Só através da experiência de que o
desconforto seguir-se-á um alívio proporcionado por
compensação e apaziguamento trazidos pela intervenção da
Mãe Boa, é que a criança vai adquirir a habilidade, tão
necessária para o homem e tão característica do
homem,...”
Vanilde Gerolim Portillo - Psicóloga Clínica-
Pós-Graduada e Especialista Junguiana CRP 06/16672
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