| |
06/03/2007
QUEM MANDA EM VOCÊ?
Seu desejo manda você ficar
em casa, dormindo. Sua vontade é de trabalhar para
crescer profissionalmente. Se o primeiro for maior que o
segundo, algo está errado.
Desejos e vontades são diferentes. Desejos são
sentimentos primários, ancestrais, biológicos;
responsáveis por providenciar o atendimento às
necessidades básicas dos seres humanos. Os desejos
nascem conosco e nos acompanham por toda a vida,
permitindo-nos não apenas o prazer, mas a
sobrevivência.
Temos o desejo de comer, e a ele chamamos de fome.
Trata-se de um desejo tão esperto, que é capaz de
selecionar o tipo de alimento dependendo da necessidade
do organismo. Se estamos carentes de proteína sentimos
desejo de comer carne, comida salgada, mas se precisamos
de energia, o desejo é de comer carboidrato, como pão,
massa, ou quem sabe um doce. Temos ainda o desejo de
descansar, que costumamos chamar de sono, cansaço, e às
vezes preguiça. Desejo importante, afinal nosso corpo
precisa de tempo para repor substâncias que ele mesmo
produz, alguns hormônios. Ele só faz isso durante os
períodos de repouso. Além disso, o desejo de repousar
promove uma economia de energia, caso contrário teríamos
que comer mais do que comemos. Haja estômago!
E, é claro, quando falamos de desejos não podemos
esquecer do sexo, afinal, trata-se de um desejo tão
forte, e tão bom de ter. E é dele que depende a
continuidade de nossa espécie. Pronto, estes são os
nossos desejos, todos ligados à manutenção da vida e da
espécie. Comer, descansar e fazer sexo atendem às
necessidades básicas da vida, por isso têm desejos para
providenciar sua realização. É evidente que fomos
sofisticando esses desejos com nossa própria evolução. O
desejo de comer foie gras e tomar champagne Veuve
Clicquot, ou ainda o desejo de assistir a uma peça na
Broadway, ou de conquistar uma estrela do cinema são
apenas variantes dos desejos originais, aqueles que
garantem nossa vida, enquanto estes garantem nossa
sofisticação.
Já as vontades são diferentes, pois dependem de um fator
a mais: a lógica. A vontade é um desejo racional. Deriva
do pensamento, do raciocínio, da análise do cenário,
tanto presente quanto futuro. Eu posso ter desejo de
ficar deitado na rede, mas tenho vontade de preparar
minha tese de doutorado. E é nesse momento que eu posso
descobrir quem manda em mim, meus desejos ou minhas
vontades. Meu ser mais primitivo, ou meu lado evoluído,
que quer continuar evoluindo.
A vontade é um sentimento que está sob controle. Podemos
mandar em nossa vontade a partir do pensamento, e a isso
costumamos chamar, popularmente, de “força de vontade”,
qualidade dos realizadores, dos determinados, dos que
parecem predestinados ao sucesso. Você levanta cedo da
cama e joga-se de corpo e alma em uma dia cheio de
trabalho, dificuldades e contratempos, não por desejo,
mas por vontade. Se obedecer ao desejo, fica na cama,
mas se controlar sua vontade, vai trabalhar. E isso vai
mostrar duas coisas em especial: seu grau de maturidade,
e a identificação racional que você tem com o seu
trabalho.
Se o desejo de ficar for maior que a vontade de ir,
alguma coisa está errada. Ou você está necessitado de
férias, ou está precisando rever os seus valores. Ou
quem sabe está na hora de amadurecer e perceber que
enquanto a vida biológica depende dos desejos, a vida
social depende das vontades. E você é um animal social,
deseje ou não.
Acredite, a melhor maneira de garantir o atendimento aos
seus desejos, é organizar a vida a partir de suas
vontades, e investir na qualidade das mesmas, o que
depende de muita lógica e maturidade. Escrevo este
artigo porque é meu trabalho orientar pessoas, e eu
espero que você, meu leitor, tenha vontades edificantes,
aquelas que servem para construir o cenário mais
propício para a realização de seus desejos, mesmo os
mais inconfessáveis!
*Eugenio Mussak é educador.
Atua como consultor nas áreas de desenvolvimento humano
e de soluções educacionais.
Fonte:
Revista Você S/A, Edição 61. |
|