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02/04/2007
A crise de abstinência de nicotina
Tinha até
esquecido o quanto sofre o fumante para largar do
cigarro. Parei há 23 anos e já não me lembrava das
agruras pelas quais passei até ficar livre da
dependência de nicotina que me escravizou durante 19
anos. Ao gravar uma série para a TV com seis personagens
que pararam de fumar num mesmo dia, no entanto, revivi
meu sofrimento e pude observar as dificuldades dos
dependentes diante da crise de abstinência de nicotina.
O cigarro nada mais é do que um dispositivo para
administrar droga. A nicotina inalada com a fumaça é
rapidamente absorvida pelos alvéolos pulmonares, cai na
circulação e chega ao cérebro num intervalo de seis a
dez segundos. Inalada, chega mais depressa do que se
tivesse sido injetada na veia, porque não perde tempo na
circulação venosa. A velocidade com que a droga chega ao
sistema nervoso central explica por que a primeira
tragada traz alívio imediato ao fumante aflito.
No tecido cerebral, a nicotina se liga a receptores
localizados nas membranas dos neurônios localizados em
vários centros cerebrais. A integração desses circuitos
é responsável pela sensação de prazer que os dependentes
referem sentir ao fumar - e que os não-fumantes são
incapazes de entender.
A droga é de excreção rápida. Sua meia-vida é curta:
duas horas, em média. Isto é, metade da dose fumada é
eliminada da circulação em duas horas. Por razões
genéticas, essa velocidade de excreção varia de um
fumante para outro; os que eliminam a droga mais
depressa tendem a fumar mais. Grande parte dos que fumam
dois ou três maços por dia é constituída por
metabolizadores rápidos de nicotina.
A presença de outras drogas na circulação pode alterar a
velocidade de excreção. É o caso do álcool, substância
na qual a nicotina se dissolve com muita facilidade.
Como o álcool é diurético, ao beber, o fumante excreta
rapidamente na urina a nicotina nele dissolvida. A queda
da concentração da droga no sangue desencadeia o desejo
irresistível de fumar.
Viciados em nicotina, os neurônios do centro que integra
as sensações de prazer, ao sentirem seus receptores
vazios dela, estimulam outros circuitos de neurônios,
que convergem para o chamado centro da busca. Esse
centro é responsável por induzir alterações
comportamentais com a intenção de nos obrigar a repetir
ações que anteriormente nos trouxeram prazer: sexo,
comida, temperatura agradável para o corpo, etc.
Uma vez que os centros do prazer ativam o centro da
busca, este não pode ser mais desativado. O centro da
busca permanecerá ativado mesmo que o prazer responsável
por sua ativação deixe de existir. Por isso o fumante se
surpreende ao acender um cigarro no toco do outro, o
usuário de cocaína continua cheirando apesar do delírio
persecutório que experimenta toda vez que usa a droga, e
o jogador compulsivo é capaz de perder a casa da família
em cima do pano verde.
Informados da falta de nicotina, os neurônios do centro
da busca lançam mão de sua mais poderosa arma de
persuasão comportamental: a ansiedade crescente. Tomado
pela vontade de fumar, o fumante perde a tranqüilidade,
fica agitado, nervoso e não consegue se concentrar em
mais nada. Para ele, não existe felicidade possível sem
o cigarro.
Como a nicotina é droga de excreção rápida, essas crises
de ansiedade se repetem muitas vezes por dia. Para
evitá-las, o fumante vive com o maço ao alcance da mão
para acender um cigarro assim que surgirem os primeiros
sinais, porque sabe que a intensidade dos sintomas da
crise é crescente, insuportável. O cérebro aprende,
então, que ansiedade e nicotina estão indissoluvelmente
ligadas. Daí em diante, todo acontecimento que provocar
ansiedade será interpretado por ele como resultante da
ausência de nicotina. Por isso os fumantes levam
imediatamente um cigarro à boca ao menor sinal de
ansiedade ou diante da emoção mais rotineira. Por isso
dizem que o cigarro os acalma.
O curto-circuito de prazer que a nicotina arma entre os
neurônios provoca uma dependência química de forte
intensidade, enfermidade cerebral crônica e recidivante.
Para tratá-la, é preciso ensinar o cérebro novamente a
funcionar como fazia antes de entrar em contato com a
droga. Tal empreitada significa enfrentar a abstinência
de nicotina, que se manifesta em crises repetitivas,
muito mais intensas, desagradáveis e difíceis de
suportar do que aquelas provocadas por drogas como
cocaína, crack, maconha, ou álcool.
Os primeiros dois dias sem fumar são os piores. As
crises se sucedem uma atrás da outra até atingirem
freqüência e duração máximas em 48 horas. Nesse período,
as manifestações incluem irritação, ansiedade, tremores,
sudorese fria nas mãos, fome compulsiva, modificação do
hábito intestinal, alterações da arquitetura do sono
(insônia ou hipersônia), dificuldade extrema de
concentração e alternância de episódios de apatia com
outros de agressividade comportamental.
A partir do terceiro dia, a freqüência das crises e a
intensidade dos sintomas começam a diminuir
gradativamente, dia após dia. À medida que as semanas se
sucedem, o desejo de fumar continua a manifestar-se, mas
vai embora cada vez mais depressa.
Em média, seis meses depois de parar de fumar, a maioria
dos ex-fumantes já consegue passar um ou outro dia sem
se lembrar da existência do cigarro. Os neurônios
começam a ficar livres da dependência que os sucessivos
impactos diários de nicotina causaram em seus circuitos.
É a liberdade do cérebro, que, para ser mantida, exige o
preço da eterna vigilância, porque a doença é
traiçoeira, crônica e recidivante.
Dr. Drauzio Varella
Site:
http://drauziovarella.ig.com.br/
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