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07/08/2006
Dimensões da
Espiritualidade
Seres
humanos não são produzidos por máquinas. Somos mais do
que apenas matéria; temos sentimento e experiência. Por
essa razão, somente conforto material não é suficiente.
Necessitamos algo mais profundo, o que usualmente chamo
de afeição humana, ou compaixão. Com afeição humana, ou
compaixão, todas as vantagens materiais que temos à
nossa disposição podem ser muito construtivas e produzir
bons resultados. Contudo, sem afeição humana, somente
vantagens materiais não nos proporcionarão satisfação,
nem produzirão qualquer medida de paz mental ou
felicidade. De fato, vantagens materiais sem afeição
humana podem até mesmo criar problemas adicionais.
Portanto, afeição humana, ou compaixão, é a chave para a
felicidade humana.
O primeiro nível da
espiritualidade, para os seres humanos de todos os
lugares, é a fé em uma das muitas religiões do mundo.
Penso que há um importante papel para cada uma das
principais religiões mundiais, mas para que elas façam
uma contribuição efetiva em benefício da humanidade do
lado religioso, há dois fatores importantes a serem
considerados. O primeiro é que praticantes individuais
das várias religiões — isto é, nós mesmos — devem
praticar sinceramente. Ensinamentos religiosos devem ser
uma parte integral de nossas vidas; eles não deveriam
estar separados de nossas vidas. Algumas vezes, vamos a
uma igreja ou um templo e rezamos uma prece, ou geramos
algum tipo de sentimento espiritual e, quando saímos,
nada daquele sentimento religioso permanece. Essa não é
a forma adequada de praticar. A mensagem religiosa deve
estar conosco onde quer que estejamos. Os ensinamentos
da nossa religião devem estar presentes em nossas vidas
de forma que, quando realmente precisamos ou pedimos
bençãos ou força interior, mesmo nessas horas esses
ensinamentos estarão lá; eles estarão lá quando
passarmos por dificuldades porque estão constantemente
presentes. Somente quando a religião torna-se uma parte
integral de nossas vidas é que ela pode ser realmente
efetiva.
Também precisamos
experienciar mais profundamente os significados e
valores espirituais de nossa própria tradição religiosa
— precisamos conhecer esses ensinamentos não só a nível
intelectual, mas também, de forma cada vez mais
profunda, através de nossa própria experiência. Algumas
vezes entendemos diferentes idéias religiosas num nível
muito superficial ou intelectual. Sem um sentimento
profundo, a eficácia da religião torna-se limitada.
Portanto, devemos praticar sinceramente, e a religião
deve tornar-se parte de nossas vidas.
O segundo fator refere-se
mais à interação entre as várias religiões mundiais.
Hoje, por causa da crescente mudança tecnológica e a
natureza da economia mundial, estamos muito mais
dependentes uns dos outros do que antes. Diferentes
países e continentes tornaram-se mais intimamente
associados uns com os outros. Na realidade, a
sobrevivência de uma região do mundo depende da de
outras. Portanto, o mundo tornou-se mais próximo, muito
mais interdependente. Como conseqüência, há mais
interação humana. Sob tais circunstâncias, a idéia de
pluralismo entre as religiões mundiais é muito
importante. Em tempos passados, quando as comunidades
viviam separadas uma das outras e as religiões surgiam
num relativo isolamento, a idéia que havia só uma
religião era muito útil. Mas agora a situação mudou, e
as circunstâncias são inteiramente diferentes. Agora é
crucial aceitar o fato de que existem diferentes
religiões, e a fim de desenvolver verdadeiro respeito
mútuo entre elas é essencial aproximar o contato entre
as várias religiões. Esse é o segundo fator que
possibilitará as religiões mundiais serem mais eficazes
em beneficiar a humanidade.
Quando estava no Tibete,
eu não tinha contato com pessoas de diferentes crenças
religiosas. Assim, minha atitude em relação às outras
religiões não era muito positiva. Mas, quando tive a
oportunidade de encontrar pessoas de diferentes crenças
e aprender com essa experiência e o contato pessoal,
minha atitude para com as outras religiões mudou.
Compreendi como são úteis para a humanidade e o
potencial contributivo de cada uma para um mundo melhor.
Há séculos, as religiões vêm dando contribuições
maravilhosas para o aprimoramento dos seres humanos, e
ainda hoje há um grande número de seguidores do
cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, hinduísmo e
assim por diante. Milhões de pessoas estão se
beneficiando de todas essas religiões.
Para dar um exemplo do
valor do encontro de diferentes crenças, meus encontros
com o falecido Thomas Merton fizeram-me perceber que
bonita, maravilhosa pessoa ele era. Noutra ocasião,
encontrei-me com um monge católico que viveu vários anos
como eremita numa montanha bem atrás do mosteiro de
Montserrat, na Espanha. Quando visitei o mosteiro, ele
desceu de sua ermida especialmente para falar comigo. O
fato de o inglês dele estar pior do que o meu me deu
mais coragem de falar com ele! Ficamos cara a cara e
perguntei, "Nesses poucos anos, o que você estava
fazendo naquela montanha?" Ele olhou-me e respondeu,
"Meditação na compaixão, no amor". Quando ele disse
estas poucas palavras, entendi a mensagem através dos
seus olhos. Realmente desenvolvi verdadeira admiração
por ele e por outros como ele. Tais experiências
ajudaram a confirmar na minha mente que todas as
religiões do mundo têm o potencial para produzir boas
pessoas, a despeito das suas diferenças de filosofia e
doutrina. Cada tradição religiosa tem sua própria
maravilhosa mensagem a transmitir.
Do ponto de vista do
budismo, por exemplo, o conceito de um criador é
ilógico. É difícil para os budistas entenderem esse
conceito por causa do modo que eles analisam a
causalidade. Contudo, este não é o lugar para discutir
questões filosóficas. O ponto importante aqui é que para
as pessoas que seguem esses ensinamentos nos quais a
crença básica está num criador, esta abordagem é eficaz.
De acordo com essas tradições, o ser humano individual é
criado por Deus. Além disso, como recentemente aprendi
de um dos meus amigos cristãos, eles não aceitam a
teoria do renascimento, e assim, não aceitam vidas
passadas ou futuras. Acreditam somente nesta vida.
Contudo, eles mantêm que esta vida é criada por Deus,
pelo criador, e esta idéia desenvolve neles um
sentimento de intimidade com Deus. Seu ensinamento mais
importante é que, como estamos aqui por desejo de Deus,
nosso futuro depende do criador, e porque o criador é
considerado supremo e sagrado, devemos amar a Deus, o
criador.
O que segue-se a isso é o
ensinamento que deveríamos amar nossos semelhantes —
esta é a mensagem principal aqui. O raciocínio é que se
amamos a Deus, devemos amar nossos semelhantes porque
eles, como nós, foram criados por Deus. O futuro deles,
como o nosso, depende do criador, portanto, sua situação
é igual a nossa. Logo, a crença das pessoas que dizem
"Ame a Deus" mas não mostram amor verdadeiro para seus
semelhantes é questionável. A pessoa que acredita em
Deus e no amor a Deus, deve demonstrar a sinceridade de
seu amor a Deus através do amor dirigido aos
semelhantes. Essa abordagem é muito poderosa, não é?
Assim, se examinarmos
cada religião por vários ângulos e da mesma maneira —
não apenas da nossa posição filosófica mas de vários
pontos de vista — não pode haver dúvida de que todas as
grandes religiões têm o potencial para melhorar os seres
humanos. Isto é óbvio. Através de um contato próximo com
pessoas de outras fés, é possível desenvolver uma
atitude aberta e de respeito mútuo em relação a outras
religiões. Proximidade com diferentes religiões ajuda-me
a aprender novas idéias, novas práticas, e novos métodos
ou técnicas que posso incorporar à minha própria
prática. Da mesma forma, alguns de meus irmãos e irmãs
cristãos adotaram certos métodos budistas, como a
prática da mente unifocada e as técnicas de
desenvolvimento da tolerância, da compaixão e do amor. O
benefício é enorme quando praticantes de diferentes
religiões se unem para esse tipo de intercâmbio. Além de
desenvolverem a harmonia entre si, ganham outras
benesses.
Políticos e líderes de
nações falam com freqüência em "coexistência" e "ação
conjunta". Por que não nós, religiosos, também? Acho que
é chegada a hora. Em Assis, em 1987, por exemplo,
líderes e representantes de várias religiões mundiais se
encontraram para orar juntos, embora eu não saiba ao
certo se orar é a palavra exata para descrever com
acuidade a prática de todas aquelas religiões. Em todo
caso, o que importa é que os representantes de várias
religiões se reuniram e, conforme suas próprias crenças,
rezaram. Isso já está acontecendo e é, creio eu, muito
positivo. No entanto, ainda precisamos fazer mais
esforços para aumentar a harmonia e a proximidade entre
as religiões mundiais, pois sem um tal esforço
continuaremos a vivenciar todos esses problemas que
dividem a humanidade. Se a religião fosse o único
remédio para reduzir o conflito humano, mas se este
mesmo remédio se tornasse outra forma de conflito, seria
um desastre. Hoje, como no passado, ocorrem conflitos em
nome da religião por causa de diferenças religiosas, e
acho isso muito triste. Mas, como disse antes, se
pensarmos aberta e profundamente compreenderemos que a
situação atual é inteiramente diferente do passado. Não
estamos mais isolados, mas somos interdependentes. Hoje,
portanto, é muito importante entender que um
relacionamento íntimo entre as várias religiões é
essencial, para que diferentes grupos religiosos possam
trabalhar juntos e realizar um esforço comum para o
benefício da humanidade. Assim, sinceridade e fé na
prática religiosa por um lado, e tolerância e cooperação
religiosa por outro, formam este primeiro nível do valor
da prática espiritual para a humanidade.
O segundo nível da
espiritualidade — a compaixão como religião universal —
é mais importante que o primeiro porque, não importa
quão maravilhosa uma religião possa ser, ainda assim ela
é aceita somente por um número limitado de pessoas. A
maioria dos cinco ou seis bilhões de seres humanos em
nosso planeta provavelmente não pratica religião alguma.
De acordo com o seu ambiente familiar, eles poderiam se
identificar como pertencentes a um ou outro grupo
religioso — "eu sou hindu", "eu sou budista", "eu sou
cristão" —, mas realmente a maioria desses indivíduos
não é necessariamente praticante de nenhuma crença
religiosa. Isto está correto: seguir uma religião ou não
é um direito da pessoa como indivíduo. Todos os grandes
mestres, como Buda, Mahavira, Jesus Cristo e Maomé
falharam em tornar toda a população humana voltada para
a espiritualidade. O fato é que ninguém pode fazer iss
Se esses não-crentes são chamados de ateus não importa.
De fato, para alguns estudiosos ocidentais os budistas
também são ateístas, pois não aceitam um criador. Por
isso, às vezes, ao descrever estes não-crentes, adiciono
a palavra "extremo" e os chamo de não-crentes extremos.
Eles não apenas são não-crentes mas também são extremos,
presos ao ponto-de-vista de que a espiritualidade não
tem valor. Contudo, devemos lembrar que essas pessoas
também são uma parte da humanidade e também têm, como
todos os seres humanos, o desejo de viver uma vida
pacífica e feliz. Este é o ponto importante.
Acredito que não há
problemas em permanecer não-crente, mas enquanto você
fizer parte da humanidade, enquanto você for um ser
humano, você precisa de afeição humana, compaixão
humana. Este é realmente o ensinamento essencial de
todas as tradições religiosas: o ponto crucial é a
compaixão ou afeição humana. Sem afeição humana, mesmo
crenças religiosas podem tornar-se destrutivas. Assim, a
essência, mesmo na religião, é um bom coração. Considero
que a afeição humana, ou compaixão, é a religião
universal. Crente ou não-crente, todos necessitam de
afeição humana e compaixão, porque compaixão nos dá
força interior, esperança e paz mental. Assim, ela é
indispensável para todos.
Examinemos, por exemplo,
a utilidade de um bom coração na vida cotidiana. Se
estamos de bom humor quando nos levantamos de manhã, com
um sentimento caloroso no coração, automaticamente está
aberta a nossa porta interior para aquele dia. Mesmo se
uma pessoa pouco amistosa aparece, não nos perturbamos,
e podemos até dizer a ela alguma coisa simpática. Mas
num dia de humor menos positivo, quando nos sentimos
irritados, nossa porta interior se fecha
automaticamente. O resultado é que, mesmo se encontramos
nosso melhor amigo, ficamos pouco à vontade e tensos.
Tais situações mostram a diferença que nossa atitude
interior faz nas experiências do dia-a-dia. Precisamos,
pois, a fim de criar uma atmosfera agradável em nós
mesmos, nas nossas famílias e nossas comunidades,
compreender que a fonte desse bem-estar está dentro do
indivíduo, dentro de cada um de nós — um bom coração,
compaixão humana, amor.
Uma vez criada uma
atmosfera positiva e amistosa, o medo e a insegurança
automaticamente diminuem. Assim, podemos facilmente
fazer mais amigos e criar mais sorrisos. Afinal de
contas, somos animais sociais. Sem amizade humana, sem o
sorriso humano, nossa vida torna-se miserável. O
sentimento de solidão fica insuportável. É a lei
natural, isto é, pela lei natural dependemos dos outros
para viver. Se, sob certas circunstâncias, por algo
estar errado dentro de nós, nossa atitude para com
nossos semelhantes, de quem dependemos, se tornar
hostil, como poderemos esperar paz de espírito e uma
vida feliz? De acordo com a natureza humana básica, ou
lei natural, a afeição — compaixão — é a chave da
felicidade. Segundo a medicina contemporânea, um estado
mental positivo, ou paz mental, também é benéfico para a
saúde física. Logo, mesmo do ponto de vista de nossa
saúde, paz e calma mental são cada vez mais importantes.
Isso mostra que o próprio corpo físico aprecia e
responde à afeição humana, à humana paz de espírito.
Se olharmos para a
natureza humana básica, veremos que nossa natureza é
mais dócil do que agressiva. Se examinarmos vários
animais, notaremos que aqueles de natureza mais pacífica
têm uma estrutura corporal correspondente, enquanto os
predadores têm uma estrutura corporal desenvolvida de
acordo com a natureza deles. Compare um tigre com um
veado. Há uma grande diferença de estrutura física entre
eles. Quando comparamos o nosso próprio corpo com os
deles, vemos que somos mais parecidos com os veados e
coelhos do que com os tigres. Até os nossos dentes são
mais parecidos com os deles, não são? Bem diferentes dos
do tigre. Nossas unhas são outro bom exemplo — eu não
sou capaz de pegar nem um rato, só com as minhas unhas
humanas. Claro, a inteligência humana nos habilita a
criar ferramentas e métodos sem os quais seria difícil
fazer muito do que fazemos. Como vêem, devido ao nosso
estado físico, pertencemos à categoria dos animais
dóceis. Acho que é nossa natureza humana fundamental que
se mostra em nossa estrutura física básica.
Diante da situação global
atual, a cooperação é essencial, especialmente em campos
como economia e educação. O conceito de que diferenças
são importantes está agora mais ou menos ultrapassado,
como demonstra o movimento por uma Europa Ocidental
unificada. Acho que esse movimento é verdadeiramente
maravilhoso e chega em boa hora. Ainda assim, esse
trabalho entre as nações não aconteceu por causa de
compaixão ou fé religiosa, mas por necessidade. Há uma
tendência crescente em direção da conscientização
global. Nas atuais circunstâncias, um relacionamento
mais íntimo com os outros tornou-se um elemento da nossa
própria sobrevivência. Portanto, o conceito de
responsabilidade universal baseado na compaixão e num
senso de irmandade é essencial. O mundo está cheio de
conflitos — por causa de ideologia, de religião ou até
entre famílias — baseados em alguém querendo uma coisa e
outra pessoa querendo outra coisa. Assim, se examinarmos
as fontes de todos esses conflitos, descobriremos muitas
fontes, muitas causas, até dentro de nós mesmos.
Nesse meio tempo,
todavia, temos o potencial e a capacidade de unirmo-nos
harmoniosamente. Tudo mais é relativo. Embora haja
várias causas de conflito, existem ao mesmo tempo muitas
causas para união e harmonia. Chegou a hora de pôr mais
ênfase na união. Também aqui, há que haver afeição
humana. Por exemplo, você pode ter uma opinião
ideológica ou religiosa diferente da de outra pessoa. Se
você respeitar o direito da outra pessoa e mostrar
sinceramente uma atitude compassiva para com ela, então
não importa se a idéia dela lhe serve, isso é
secundário. Enquanto a outra pessoa acreditar, enquanto
puder se beneficiar de tal ponto de vista, ela estará em
seu absoluto direito. Então, precisamos respeitar e
aceitar o fato de que existem diferentes pontos de
vista. No campo da economia dá-se o mesmo: nossos
competidores devem obter algum lucro, pois eles também
precisam sobreviver. Quando temos uma visão mais ampla
baseada na compaixão, creio que tudo se torna mais
fácil. Compaixão, mais uma vez, é o fator-chave.
Os conflitos mundiais
estão hoje consideravelmente menos tensos. Felizmente,
agora podemos pensar e falar seriamente sobre
desmilitarização. Cinco anos atrás isso seria difícil,
mas hoje a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a
ex-União Soviética acabou. Aos meus amigos americanos eu
sempre digo: A força de vocês não vem das armas
nucleares, mas dos nobres ideais de democracia e
liberdade dos seus antepassados. Quando estive nos
Estados Unidos em 1991, pude encontrar o ex-presidente
George Bush. Na ocasião, falávamos sobre a nova ordem
mundial e eu lhe disse: Uma nova ordem mundial com
compaixão é ótimo. Sem compaixão, não tenho certeza.
Creio que é um bom
momento para pensarmos e falarmos sobre
desmilitarização. Já há sinais de redução armamentícia
e, pela primeira vez, de desnuclearização. Passo a
passo, vamos vendo uma diminuição de armas. Penso que
nossa meta deveria ser a de livrar o mundo — nosso
pequeno planeta s das armas. Isso não quer dizer, porém,
que devamos abolir todo tipo de armas. Talvez seja
preciso guardar algumas, pois há sempre algumas pessoas
e grupos criando confusão entre nós. Por precaução, e
para nos resguardarmos desses focos, poderíamos criar um
sistema internacional de forças policiais monitoradas
regionalmente, que não pertençam a nenhum país mas sejam
controladas coletivamente e supervisionadas por uma
organização internacional, como as Nações Unidas. Sem
armas disponíveis, não haveria perigo de conflito
militar entre as nações, nem haveria guerras civis.
A guerra continua sendo,
para nossa tristeza, parte da história humana, mas acho
que chegou a hora de mudar os conceitos que levam à
guerra. Certas pessoas acham gloriosa a guerra, e que
através dela podem se tornar heróis. Essa atitude comum
em relação à guerra é muito errada. Um entrevistador me
disse, um desses dias, que os ocidentais têm muito medo
da morte, mas que os orientais a temem pouco. Eu lhe
respondi, em tom de brincadeira, que para a mentalidade
ocidental, a guerra e a instituição militar parecem
extremamente importantes. Guerra significa morte —
provocada, e não por causas naturais. Assim, são vocês,
ocidentais, que não temem a morte, porque gostam tanto
da guerra. Nós, orientais, principalmente nós,
tibetanos, não podemos nem pensar em guerra; lutar, para
nós, está fora de cogitação porque o resultado
inevitável da guerra é o desastre: morte, ferimentos e
miséria. Portanto, o conceito de guerra para nós é
extremamente negativo. Isso quer dizer que, na
realidade, temos mais medo da morte do que vocês, você
não acha?
Infelizmente, alguns
fatores fazem que nossas idéias sobre a guerra sejam
muito incorretas. É hora, portanto, de pensar seriamente
sobre desmilitarização. Eu senti isso profundamente,
durante e depois da crise do Golfo Pérsico. Claro, todos
culparam Sadam Hussein, e não há dúvida de que Sadam
Hussein é negativo — ele errou de muitas maneiras.
Afinal, ele é um ditador, e ditadores são obviamente
negativos. No entanto, sem sua organização militar, sem
suas armas, Hussein não seria aquele tipo de ditador.
Quem lhe forneceu as armas? Os fornecedores também têm
responsabilidade. Alguns países ocidentais lhe
forneceram armas sem medir as conseqüências.
Pensar apenas em
dinheiro, em lucrar vendendo armas, é realmente
horrível. Certa vez, encontrei uma francesa que passara
muitos anos em Beirute, no Líbano. Ela me disse, com
grande tristeza, que durante a crise em Beirute havia
gente de um lado da cidade ganhando dinheiro com a venda
de armas, enquanto do outro lado, no mesmo dia, havia
gente inocente sendo morta pelas mesmas armas. Da mesma
forma, de um lado do planeta há pessoas vivendo
suntuosamente com o lucro auferido da venda de armas,
enquanto pessoas inocentes morrem do outro lado do
planeta, vítimas daquelas balas sofisticadas. O primeiro
passo, portanto, é parar a venda de armas. às vezes eu
brinco com meus amigos suecos: Vocês são mesmo
maravilhosos. Mantiveram a neutralidade durante o último
conflito e sempre consideram a importância dos direitos
humanos e da paz mundial. ótimo. Mas, nesse meio tempo,
estão vendendo muitas armas. Há uma pequena contradição
aí, não há?
Assim, desde a crise do
Golfo Pérsico, prometi a mim mesmo que pelo resto da
minha vida contribuirei para avançar a idéia da
desmilitarização. No que diz respeito ao meu país, já
resolvi que, futuramente, o Tibete deverá ser uma zona
totalmente desmilitarizada. Mais uma vez, para tornar a
desmilitarização uma realidade, o fator chave é a
compaixão.
Gostaria de concluir
explicando melhor o significado de compaixão, que
freqüentemente é mal entendido. Compaixão verdadeira não
está baseada em nossas próprias projeções e
expectativas, mas sim nos direitos do outro:
independentemente da outra pessoa ser um amigo íntimo ou
um inimigo, contanto que ela deseje paz e felicidade e
deseje superar o sofrimento, então, baseado nisso,
desenvolvemos respeito verdadeiro para com seus
problemas. Isso é compaixão verdadeira.
Em geral, chamamos
qualquer preocupação com um amigo próximo de compaixão.
Isso não é compaixão, é apego. Nem casamentos duram por
apego, embora o apego geralmente esteja presente. Eles
duram porque também há compaixão. Se os casamentos duram
pouco, é por perda de compaixão; só há apego emocional
baseado em projeção e expectativa. Quando o único
vínculo entre amigos íntimos é o apego, mesmo uma
questão menor pode causar uma mudança nas projeções.
Assim que nossa projeção muda, o apego desaparece —
porque o apego estava baseado unicamente na projeção e
expectativa.
É possível ter compaixão
sem apego — e similarmente, ter cólera sem ódio.
Portanto, precisamos esclarecer as diferenças entre
compaixão e apego, e entre cólera e ódio. Tal clareza é
útil em nossa vida diária e em nossos esforços para a
paz mundial. Considero esses valores espirituais como
básicos para a felicidade de todos os seres humanos,
tanto do crente quanto do não crente.
Ensinamento dado em
Melbourne, Austrália, no National Tennis Centre, em 4 de
maio de 1992 e publicado em Dimensions of Spirituality,
Wisdom Publicaions, 1995. Tradução de Bruno D'Avanzo do
Centro de Estudos Budistas Paramitta (Curitiba - PR), em
sua visita ao CEBB em julho 1996, e de José Fonseca do
CEB-Bodisatva (Porto Alegre - RS). |
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