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Espiritualidade
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21/08/2006
O Eu Aparente e o Eu Real
- Por Sry Aurobindo -
Este é o teu trabalho e a meta de teu ser e a razão de
estares aqui, para tornar-te o divino super-homem e um
perfeito receptáculo da Divindade. Tudo o mais que tens
que fazer é somente uma preparação para te aprontares,
ou uma alegria no caminho, ou um declínio de teu
propósito. Mas a meta é esta, e o propósito é este e não
no poder do caminho e na alegria do caminho, porém na
alegria da meta está a grandeza e o deleite de teu ser.
A alegria do caminho é porque aquilo que te está
atraindo está também dentro de ti, na tua senda, e o
poder para galgar te foi dado, para que possas escalar
até tuas próprias culminâncias.
Se tu tens um dever, este é teu dever; se tu perguntas
qual será tua meta, que esta seja tua meta; se tu
careces de prazer, não existe maior alegria, pois toda
outra alegria é fragmentada ou limitada, a alegria de um
sonho, ou a alegria de um sono ou a alegria do
auto-esquecimento. Mas esta é a alegria de teu ser
inteiro.
Porque, se tu dizes que é meu ser, este é teu ser, o
Divino, e tudo mais é apenas sua aparência pervertida e
fragmentada. Se procuras a Verdade, esta é a Verdade.
Coloque-a diante de ti, e em todas as coisas sê fiel a
ela.
Disse bem alguém que viu, mas através de um véu, e tomou
o véu pela face, que tua meta é a de te tornares tu
mesmo; e ele disse bem, outra vez, que é da natureza do
homem transcender a si mesmo. Esta é, na verdade, sua
natureza, e esta é, na verdade, a meta divina de sua
transcendência.
O que é, então, o eu que tu tens de transcender? E o que
é o Eu que tu tens de te tornar? Porque é aqui que tu
não deverias fazer nenhum erro; pois esse erro, de não
te conheceres a ti mesmo, é a fonte de todas as tuas
tristezas e a causa de todos os teus tropeços.
Isso que tu tens de transcender, é o eu que tu aparentas
ser, e isso é o homem como tu o conheces, o aparente
Purusha*. E o que é este homem? Ele é um ser mental,
escravizado à vida e à matéria; e quando não está
escravizado à vida e à matéria, ele é o escravo de sua
mente. Mas essa é uma escravidão grande e pesada, porque
ser escravo da mente é ser escravo do falso, do limitado
e do aparente.
O Eu que tu tens de te tornar é aquele Eu que tu és
dentro, por trás do véu da mente e da vida e da matéria.
É ser o espiritual, o divino, o super-homem, o real
Purusha. Porque aquilo que está acima do ser mental é o
super-homem. E ser o senhor de tua mente, de tua vida e
de teu corpo é ser um rei sobre a Natureza, de quem és
agora um instrumento, é revelar-se acima dela, que agora
te tem sob seus pés. É ser livre, e não o escravo; é ser
uno, e não dividido; é ser imortal, e não sombreado pela
morte; é ser pleno de luz, e não obscurecido; é ser
pleno de bem-aventurança, e não um joguete de tristezas
e sofrimentos; é ser exaltado ao poder, e não lançado
dentro da fraqueza. É viver no Infinito e possuir o
finito. É viver em Deus e ser uno com Ele em seu ser.
Tornar-te tu mesmo é ser isso e tudo que flui disso.
Sê livre em ti mesmo e, portanto, livre em tua mente,
livre em tua vida e em teu corpo. Porque o Espírito é
liberdade.
Sê uno com Deus e com todos os seres; vive em ti mesmo,
e não em teu pequeno ego. Porque o Espírito é união.
Sê tu mesmo imortal e não ponhas tua fé na morte; porque
a morte não é de ti mesmo, mas de teu corpo. Porque o
Espírito é imortalidade.
Ser imortal é ser infinito em ser e consciência e
bem-aventurança; porque o Espírito é infinito, e aquilo
que é finito vive apenas de sua infinitude.
Estas coisas tu és, portanto tu podes tornar-te todas
elas; mas se tu não fores estas coisas, então tu não
podes nunca te tornar nelas. O que está dentro de ti,
isso somente pode ser revelado em teu ser. Tu aparentas,
na verdade, ser diferente, mas por que razão deverias te
escravizar às aparências?
Melhor erguer-te, transcender a ti mesmo, tornar-te tu
mesmo. Tu és homem, e toda a natureza do homem é
tornar-se mais que ele mesmo. Ele era o homem-animal,
ele tem que se tornar mais que o animal-homem. Ele é o
pensador, o artesão, o que busca a beleza. Ele será mais
que o pensador, ele será o vidente do conhecimento, ele
será mais que o artesão, ele será o criador e o senhor
de sua criação; ele será mais que aquele que busca a
beleza, porque desfrutará de toda a beleza e de todo o
deleite... No físico, ele procura por esta substância
imortal; no vital, ele busca a vida imortal e o infinito
poder de seu ser; no mental, e parcialmente em
conhecimento, busca a luz total e a completa visão.
Possuir isso é tornar-se o super-homem; porque ele tem
que se erguer acima da mente até a super-mente. Chame-a
de mente ou Conhecimento, ou de Super-mente; é o poder e
a vontade divina e a divina consciência. Pela
Super-mente o Espírito viu e criou a si mesmo em mundos;
por ela, ele vive neles e governa-os. Por ela, ele é
Swarat**, o soberano de si e de tudo.
Viver no Ser Divino e deixar que a consciência e a
ventura, a vontade e o conhecimento do Espírito te
possuam e brinquem contigo e através de ti, este é o
significado.
Esta é a transfiguração de ti mesmo na montanha. É
descobrir Deus em ti mesmo e revelá-Lo a ti mesmo em
todas as coisas. Vive em seu ser, brilha com sua luz,
age com seu poder, regozija-te com sua ventura. Sê esse
Fogo e esse Sol e esse Oceano. Sê essa alegria, essa
grandeza e essa beleza.
(Texto extraído do livro “Sabedoria de Sry Aurobindo” –
Editora Shakti – 1999.) |
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