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Espiritualidade
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14/09/2006
Ensinamentos:
Bondade e Compaixão
Esta noite, gostaria de falar a vocês sobre a
importância da bondade e da compaixão. Ao discutir esses
temas, não me vejo como budista, Dalai Lama ou tibetano,
mas sim como um ser humano e espero que vocês, no
auditório, pensem em si mesmos dessa maneira. Não como
americanos, ocidentais ou membros de um determinado
grupo, pois essas condições são secundárias. Se
interagirmos como seres humanos, podemos chegar a esse
nível. Caso eu diga "sou monge" ou "sou budista", as
afirmações serão, em comparação com a minha natureza de
ser humano, temporárias. Ser humano é básico. Uma vez
nascido assim, não se poderá mudar até a morte. Outras
condições, ser ou não instruído, rico ou pobre, são
secundárias.
Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns são criados
essencialmente por nós mesmos, com base em diferenças de
ideologia, religião, raça, situação econômica ou outros
fatores. Chegou, portanto, o momento de pensarmos em
níveis mais profundos. Em nível humano, condição essa
que deveremos apreciar e respeitar em todos os que nos
cercam. Devemos construir relacionamentos baseados na
confiança mútua, na compreensão, no respeito e na
solidariedade, independentemente de diferenças
culturais, filosóficas ou religiosas.
Todos os seres humanos são iguais. Feitos de carne,
ossos e sangue. Todos queremos a felicidade e evitar o
sofrimento e temos direito a isso. Em outras palavras, é
importante compreender a nossa igualdade. Pertencemos
todos a uma família humana. O fato de brigarmos uns com
os outros deve-se a razões secundárias, e todas essas
discussões são inúteis. Infelizmente, durante muitos
séculos, os seres humanos usaram todos os métodos para
ferir uns aos outros. Muitas coisas terríveis
aconteceram, resultando em mais problemas, mais
sofrimento e desconfiança. E, conseqüentemente, em mais
divisões.
O mundo hoje está cada vez menor em vários aspectos,
particularmente o econômico. Os países estão mais
próximos e interdependentes e, nesse quadro, torna-se
necessário, pensar mais em nível humano do que em termos
do que nos divide. Assim, falo a vocês apenas como um
ser humano e espero, sinceramente, que vocês estejam
escutando com o pensamento: "Sou um ser humano e estou
ouvindo outro ser humano falar".
Todos queremos a felicidade; nas cidades, no campo,
mesmo em lugares remotos, as pessoas trabalham com o
objetivo de alcançá-la, entretanto, devemos ter em mente
que viver a vida superficialmente não solucionará os
problemas maiores.
Há muitas crises e medos à nossa volta. Por meio do
grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia,
atingimos um estado avançado de progresso material, que
é necessário. Não podemos, no entanto, comparar o
progresso externo com nosso progresso interior. As
pessoas queixam-se do declínio da moralidade e do
aumento da criminalidade, mas esses problemas não serão
resolvidos, se não procurarmos desenvolver nosso
interior.
No passado remoto, se houvesse uma guerra, os efeitos
seriam geograficamente limitados, porém hoje, em função
do progresso, o potencial de destruição ultrapassou o
concebível. No ano passado estive em Hiroshima, no
Japão. Mesmo tendo informações a respeito da explosão
nuclear lá ocorrida, era muito diferente estar no local,
ver com meus próprios olhos e encontrar pessoas que
realmente sofreram com aqueles acontecimentos. Fiquei
profundamente emocionado. Uma arma terrível tinha sido
usada. Embora possamos considerar alguém como inimigo,
temos de levar em conta que essa pessoa é um ser humano
e que tem direito a ser feliz. Olhando para Hiroshima e
refletindo a respeito, fiquei ainda mais convencido de
que a raiva e o ódio não são meios para solucionar
problemas.
A raiva não pode ser superada pela raiva. Quando uma
pessoa tiver um comportamento agressivo com você e a sua
reação for semelhante, o resultado será desastroso. Ao
contrário, se você puder se controlar e tomar atitudes
opostas "compaixão, tolerância e paciência", não só se
manterá em paz, como a raiva do outro diminuirá
gradativamente. Do mesmo modo, problemas mundiais não
podem ser solucionados pela raiva ou pelo ódio.
Sentimentos como esses devem ser enfrentados com amor,
compaixão e pura bondade.
Pensem em todas as terríveis armas que existem, mas que,
por si mesmas, não podem iniciar uma guerra. Por trás do
gatilho há um dedo, movido pelo pensamento, não por sua
própria força. A responsabilidade permanece em nossa
mente, de onde se comandam as ações. Portanto, controlar
em primeiro lugar a mente é muito importante. Não estou
falando de meditação profunda, mas apenas de cultivar
menos raiva e mais respeito aos direitos do outro. Ter
uma compreensão mais clara da nossa igualdade como seres
humanos.
Ninguém quer a raiva, ninguém quer a intranqüilidade,
mas por causa da ignorância somos acometidos por
sentimentos como esses. A raiva nos faz perder uma das
melhores qualidades humanas, o poder de discernimento.
Temos um cérebro bem desenvolvido, coisa que outros
mamíferos não têm. Esse órgão nos permite julgar o que é
certo e o que é errado. Não apenas em termos atuais, mas
em projeções para daqui dez, vinte ou mesmo cem anos.
Sem nenhum tipo de pré-cognição, podemos utilizar nosso
bom senso para determinar o certo e o errado. Imaginar
as causas e seus possíveis efeitos. Contudo, se nossa
mente estiver ocupada pela raiva, perderemos o poder de
discernimento e nos tornaremos mentalmente incompletos.
Devemos salvaguardar essa capacidade e, para tanto,
temos de criar uma companhia de seguros interna:
autodisciplina, autoconsciência e uma clara compreensão
das desvantagens da raiva e dos efeitos positivos da
bondade. Se refletirmos a respeito dessas questões com
freqüência, podemos incorporar a idéia e, então,
controlar a mente.
Por exemplo: pode ser que você seja uma pessoa que se
irrita facilmente com pequenas coisas. Com desenvolvida
compreensão e conscientização, isso pode ser controlado.
Se você fica geralmente zangado por dez minutos, tente
reduzi-los para oito. Na semana seguinte, reduza para
cinco e, no próximo mês, para dois. Depois, passe para
zero. É assim que desenvolvemos e treinamos nossa mente.
É o que penso e também o que pratico.
É perfeitamente claro que todos necessitam de paz
interior, que só pode ser alcançada por meio da bondade,
do amor e da compaixão. O resultado é uma família em
paz, felicidade entre pais e filhos, menos brigas entre
casais. Em uma nação, essa atitude pode criar unidade,
harmonia e cooperação com saudável motivação. Em nível
internacional, precisamos de confiança e respeito
mútuos, discussões francas e amistosas, com motivações
sinceras e um esforço conjunto no sentido de resolver
problemas. Tudo isso é possível.
Precisamos, porém, mudar interiormente. Nossos líderes
têm feito o melhor que podem para resolver nossos
problemas, mas, quando um é resolvido, surge outro.
Tenta-se solucionar este, surge mais um em outro lugar.
Chegou o momento então de tentar uma abordagem
diferente.
É certamente difícil realizar um movimento mundial pela
paz de espírito, mas é a única alternativa. Caso
houvesse outro método mais fácil e prático, seria
melhor, porém não há. Se com armas pudéssemos chegar à
paz duradoura, muito bem. Transformaríamos todas as
fábricas em produtoras de armamentos. Gastaríamos todos
os dólares necessários, se conseguíssemos a definitiva
paz, mas tal é impossível.
As armas não permanecem empilhadas. Uma vez
desenvolvidas, alguém irá usá-las. O resultado é a morte
de criaturas inocentes. Portanto, a única maneira de
atingirmos uma paz mundial duradoura é por meio da
transformação interior. E, mesmo que essa transformação
não ocorra durante esta vida, a tentativa terá sido
válida. Outros seres humanos virão; a próxima geração e
as seguintes. E o progresso pode continuar. Sinto que,
apesar das dificuldades práticas, e, mesmo correndo o
risco de que tal visão seja considerada pouco realista,
vale a pena o esforço. Assim, aonde quer que eu vá,
expresso essas idéias e sinto-me muito motivado porque
mais pessoas têm sido receptivas a elas.
Cada um de nós é responsável por toda a humanidade.
Chegou a hora de pensarmos nas outras pessoas como
verdadeiros irmãos e irmãs e nos preocuparmos com seu
bem-estar. Mesmo que você não possa se sacrificar
inteiramente, não deverá esquecer-se das dificuldades
dos outros. Temos de pensar mais sobre o futuro em
benefício de toda a humanidade. Se você tentar dominar
seus sentimentos egoístas e desenvolver mais bondade e
compaixão, em última análise, você é quem irá sair
beneficiado. É o que chamo de egoísmo sábio. Pessoas
egoístas tolas só pensam em si mesmas, e o resultado é
negativo. Egoístas sábios pensam nos outros, ajudam da
melhor forma e também colhem os benefícios. Essa é minha
simples religião. Não há necessidade de templos ou de
filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso
coração são nossos templos. A filosofia é a bondade.
(Texto extraído da obra A Policy of Kindness, Snow Lion
Publications, 1990.)
Fonte:
http://www.dalailama.org.br/
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