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Espiritualidade
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23/10/2006
Uma ponte
entre ciência e religião
Budismo não tem Deus nem se baseia em reza; busca
eliminar o sofrimento analisando o funcionamento da
mente
“Para mim, o budismo é a ponte entre o materialismo e o
espiritualismo”, afirmou o Dalai Lama, ao ser
questionado sobre a relação entre a milenar religião
oriental, da qual ele é um dos principais líderes, e
disciplinas mais modernas como a psicologia e a
neurociência.
“Alguns estudiosos dizem que o budismo não é uma
religião, mas uma ciência da mente. Há uma lógica nessa
afirmação, pois todos os objetivos do budismo são
atingidos por meio do treinamento da mente, e não da
reza”, continuou Tenzin Gyatso, durante entrevista
exclusiva ao Link na última sexta-feira.
“Isso é algo único do budismo em relação às outras
religiões importantes do mundo. Mas não quer dizer que o
budismo seja uma religião melhor. Não é”, disse.
Nos últimos anos, diversos pesquisadores ocidentais
deram início a investigações para tentar avaliar, com
base em métodos científicos, os efeitos da meditação
budista no cérebro humano. O próprio Dalai Lama foi
convidado a participar, no final de 2005, da Conferência
Anual da Sociedade de Neurociência norte-americana, em
Washington D.C.
A participação do líder religioso do budismo tibetano no
importante congresso, assim como as pesquisas sobre os
efeitos da meditação, provocaram polêmica por tocar em
um dos pilares do universo científico ocidental: a
incompatibilidade entre ciência e religião.
“Quem virá no próximo ano? O papa?”, perguntou um dos
pesquisadores contrários à recente participação de Dalai
Lama no encontro científico americano.
“Muitas pessoas ainda consideram ciência e religião como
sendo opostas. Embora eu concorde que alguns conceitos
religiosos conflitem com certos princípios e fatos
científicos, acredito que representantes desses dois
universos podem estabelecer uma discussão inteligente”,
escreveu Dalai Lama em artigo publicado no jornal The
New York Times em novembro de 2005.
Diplomático, o líder tibetano chegou a sugerir que o
budismo deveria abandonar algumas de suas crenças que já
tenham sido provadas como erradas pela ciência. E
introduziu nos monastérios budistas sob sua orientação a
obrigatoriedade do estudo de disciplinas como física,
química e biologia.
Mas, afinal, o que no budismo justificaria uma maior
colaboração com a ciência?
O budismo é uma religião, mas é mais ainda um sistema
ético, filosófico e psicológico que visa a auxiliar as
pessoas a entender as razões de seus sofrimentos e
construir uma vida mais feliz e em harmonia com os
outros.
Busca-se esse objetivo por meio de uma análise minuciosa
do funcionamento da mente, através de práticas de
meditação surgidas na Índia há mais de 2.500 anos e
constantemente aprimoradas no Oriente desde então. Por
isso, alguns estudiosos do budismo o definem como uma
“tecnologia (para o controle) da mente” ou “tecnologia
da iluminação (despertar da mente)”.
No Ocidente, o estudo científico dos fenômenos psíquicos
e do comportamento, chamado genericamente de psicologia,
teve grande desenvolvimento a partir do final do século
19. No século 20, foi a vez da neurociência, que estuda
a estrutura, o funcionamento e as doenças do sistema
nervoso (principalmente do cérebro).
Desde 1987, o instituto Mind and Life, do qual o Dalai
Lama é presidente de honra, promove, a cada dois anos,
em Dharamsala (capital do governo tibetano no exílio, no
norte da Índia), uma semana de conferências com o
objetivo de estabelecer uma colaboração entre a ciência
moderna e o budismo.
Segundo o neurocientista de origem chilena Francisco J.
Varela (1946-2001), um dos fundadores do instituto (www.mindandlife.org),
o budismo é uma “excelente fonte de estudos sobre a
mente humana, realizados durante muitos séculos com
grande rigor teórico, e, ainda mais significativo, com
exercícios e práticas muito precisas voltadas para a
exploração individual”.
“Esse tesouro de conhecimento é um complemento
insubstituível para a ciência”, completou o estudioso,
cuja carreira foi baseada na França.
O próprio Sidartha Gautama, fundador da religião no ano
550 a.C, sempre urgiu seus discípulos a não aceitarem a
validade de suas próprias afirmações, por simples
reverência. Aconselhava-os a testar a verdade do que ele
dizia através de um exame meticuloso e da experimentação
pessoal.
Ou seja, o próprio Buda histórico adotou, desde o
início, uma postura científica de experimentação
constante dos princípios teóricos e das práticas
budistas.
Mais: o Buda não é considerado Deus. Na verdade, o
budismo nega a existência de um criador supremo. Seu
objeto principal é o sofrimento e a possibilidade de
cessação do sofrimento, não questões teológicas ou
ontológicas.
Em artigo intitulado “Religião e Ciência”, publicado em
1930 na New York Times Magazine, Albert Einstein
escreveu: “O budismo tem as características que se
poderia esperar de uma religião cósmica para o futuro.
Transcende a idéia de Deus, evita dogmas e a teologia.
Trata tanto do natural quanto do espiritual e é baseada
em uma noção religiosa que aspira à vivência de todas as
coisas, naturais e espirituais, como uma unidade cheia
de sentido”.
“Da perspectiva do bem-estar humano, não podemos dizer
que a ciência e a espiritualidade não estão
relacionadas”, escreve o Dalai Lama no prólogo do livro
O Universo em um Átomo - O Encontro da Ciência com a
Espiritualidade, lançado no Brasil, pela editora Ediouro.
“Precisamos de ambas, já que o alívio do sofrimento deve
acontecer tanto no nível físico quanto no psicológico”.
O.D e R.A.
Fonte:
http://www.link.estadao.com.br/ |
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