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06/11/2006
Trabalho e a Espiritualidade
Sempre estou me
questionando sobre a espiritualidade. Um dos
questionamentos que sempre tenho feito diz respeito ao
modo de viver a espiritualidade fora dos templos e
especial no trabalho, onde passamos grande parte de
nossos dias.
Atualmente, tenho
lido sobre gestão estratégica, liderança e outros temas
ligados à gestão de pessoas e de empresas. Tenho
observado que diversos autores especializados em
Administração estão procurando ver os empregados das
empresas de uma forma holística. Desapegando-se das
visões tradicionais do passado, que viam o homem somente
como aquele que trabalha, modernamente, o ser humano tem
sido visto também como aquele que pensa, que sonha, que
ama e que tem várias outras atividades fora dos locais
de trabalho, inclusive uma família, sendo ainda um ser
espiritual.
Confirmando esse
enfoque holístico, vale a referência ao livro “O
Monge e o Executivo”, do autor James C. Hunter, de
cuja leitura engrandece a todos, surpreendendo àqueles
que, por ventura, persistem com o enfoque antigo sobre a
ligação homem-trabalho.
O autor desse
fascinante livro nos apresenta um personagem por deveras
surpreendente: Leonardo Hoffeman, um empresário de
renomado sucesso e especialista em liderança, larga tudo
para ser tornar um monge beneditino.
Neste contexto, um
outro personagem do livro, John Daily, bem sucedido em
suas atividades profissionais, resolve participar de um
seminário a ser ministrado por Leonardo Hoffeman, vez
que se sente fracassando em sua vida, sobretudo
enquanto chefe, esposo e pai.
John e outros quatro
personagens participantes do seminário aos poucos vão
superando os ceticismos e envolvendo-se nos ensinamentos
do monge. O monge parte da premissa de que um grande
líder não é aquele que detém o poder, mas, sim, a
autoridade. O poder, segundo o guru, é fruto de posição
e de cargo, mas tais posições necessariamente não levam
os seus detentores a possuírem autoridade, vez que o
poder sempre é imposto, mas a autoridade é conquistada.
E como se chegar à
autoridade? Segundo o monge, a autoridade é conquistada
com amor, dedicação e sacrifício, partindo do respeito,
responsabilidade e cuidado com as pessoas que o cercam
no trabalho e fora dele.
Surpreendendo ainda
mais os alunos, o monge afirma que uma pessoa se torna
um grande líder, quando passa a servir aos seus
liderados. Para exemplificar o que ele estava querendo
dizer sobre servir, cita o maior de todos os líderes,
Jesus Cristo. Esse líder singular viveu sua vida para
servir, praticando o verdadeiro amor ao próximo,
ensinando, tocando, acariciando, curando todos aqueles
necessitados. Assim, se tornou líder em sua família, em
sua região e em todo o planeta.
O vocábulo “servir”
está diretamente ligado à idéia citada pelo monge:
ter cuidados com as pessoas. A palavra “cuidado”
remete-me a um outro livro, lido há alguns anos,
intitulado “Saber Cuidar –Ética do humano – compaixão
pela terra”, do autor Leonardo Boff.
Leonardo Boff
defende, no livro, a necessidade do ser humano em
desenvolver a capacidade de cuidar de si, das pessoas
nas relações sociais e de toda a natureza. Segundo o
autor, a falta de cuidado se apresenta constante em
nossos dias, atingindo o planeta Terra e as pessoas. A
população mundial, em torno de setenta por cento, está
sacrificada e relegada a uma péssima qualidade de vida e
os recursos naturais do planeta estão gravemente
comprometidos. Para se encontrar o caminho de
salvamento, precisa-se de atuação urgente no sentido de
inverter a rota, do atual descuido geral para o
consciente cuidado com a natureza e com as pessoas. Uma
nova filosofia com enfoque holístico (preocupação com o
todo) é a alternativa para combater o materialismo de
hoje e o nefasto modelo econômico, onde,
lamentavelmente, o que importa é o lucro, não as
pessoas.
Opondo-se ao
descuido, tão em voga no tempo atual, Boff defende a
urgente opção pelo cuidado. Cuidar, como ele diz, é
mais que um ato, é uma atitude de preocupação, de
responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro.
As pessoas, além de corporais e psíquicas, são seres
espirituais. Premente se torna, portanto, valorizar esse
lado espiritual com sentimento; praticando, ainda, o
cuidado com a Terra, com a vida, com a sociedade e com o
destino das pessoas, sobretudo da grande maioria
empobrecida. Para enfocar o valor do cuidado, o autor
apresenta a fábula-mito escrita por Higino, que morreu
no ano dez da era cristã. Diz a fábula que o:
Cuidado vê um pedaço de
barro e lhe dá forma. Júpiter sopra e o barro passa a
ter espírito. Quando o Cuidado quis dar nome à criatura,
Júpiter o proibiu, pois quis que fosse imposto o seu
nome. Neste momento surge a Terra, ela também quis
conferir o seu nome à criatura, alegando que a criatura
fora feita de barro, mesmo corpo da Terra. Houve, então,
uma discussão entre os três. De comum acordo, eles
solicitaram a Saturno que agisse como árbitro e ele
tomou sua decisão falando o seguinte: “Júpiter, você lhe
deu o espírito, receberá de volta este espírito, quando
a criatura morrer; Terra, você lhe deu o corpo, receberá
de volta o seu corpo, quando a criatura morrer; Cuidado,
você, que primeiro moldou a criatura, ficará com a
responsabilidade de cuidar dela, enquanto ela viver;
quanto ao nome, decido eu, esta criatura se chamará
Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra
fértil”.
Entende-se por
fábula a narrativa imaginária com o objetivo de
transmitir lições morais, tornando concreta uma verdade
abstrata e por mito as representações da
consciência coletiva. Com esse entendimento, pode-se
dizer que a fábula-mito, citada pelo autor, vem de modo
especialíssimo enfatizar a importância primordial do
cuidado a ser observado pelo ser humano em toda a sua
caminhada terrestre, sem esquecer que, sendo também
formado de terra (feito de barro), o homem deve
interagir com toda a dimensão material de determinada
região física do planeta, mantendo-se total
inter-relação com o universo também, preocupando-se,
igualmente, com o seu lado espiritual.
E como deve ser esse
cuidado, que todos nós devemos ter? Leonardo observa
que, em essência, mais que ter cuidado, o homem é o
próprio cuidado, pois, sem ele o homem deixa de ser
humano. O cuidado significa carinho, vigilância,
dedicação, solicitude, zelo, atenção, bom trato,
etc, para com as pessoas, para com os animais e com a
natureza.
Este autor vê o
modo de ser do trabalho voltado muito para o que ele
chama de ditadura, encontrada ainda em grande escala,
pois há falta de respeito com os trabalhadores, com as
pessoas humanas, valendo mais o capitalismo selvagem,
que pode destruir o planeta. Urge, portanto, o resgate do modo de ser do cuidado, o corretivo
indispensável, para o resgate do respeito e do
sentimento por todos, sobretudo pelos excluído, com
vistas a uma justa vida social. Para que esta postura
aconteça, é preciso a ênfase no sentimento, vez que a
razão se apresenta de maneira limitada; o sentimento,
sim, é verdadeiramente a lógica do coração. Segundos
estudos de especialistas no assunto, a mente emocional
se manifesta mais rapidamente, sendo o primeiro impulso
o do coração e não o da mente.
É a partir desta
ênfase no emocional que o cuidado deve se manifestar
para com todas as pessoas e para com a natureza.
Leonardo observa ainda que é com o sentimento que surge
a capacidade de simpatia e empatia (colocar-se no lugar
do outro), a dedicação, a comunhão com os diferentes. É
o sentimento que torna o homem sensível a tudo que está
a sua volta, gerando o gostar. É o sentimento que une o
homem às coisas e o envolve com as pessoas. Mais que a
tese cartesiana: penso, logo existo, vale o
conceito: sinto, logo existo.
O amor, segundo o
pensamento de Leonardo Boff, manifesta-se no ser humano
gerando a família e por conseqüência a sociedade. Mas se
não acontecer o amor, o social é inevitavelmente
destruído. A competição, tão em voga na atualidade, é
uma atitude anti-social, porque ela nega o outro, recusa
a partilha e o amor ao próximo. A competição é, pois,
excludente, inumana, fazendo tantas vítimas, impedindo
um presente e um futuro melhor para a humanidade e para
a Terra. Sem amor, o homem não é ser social; sem o
cuidado essencial, o amor não ocorre, não se conserva,
não se expande, nem permite a ligação profunda dos
seres, não inspira a vontade de partilhar e vivenciar o
verdadeiro amor.
Boff posiciona-se no
sentido de que para se chegar ao cuidado, devemos
encontrar a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o
menos, o que ele chama de “a regra do ouro”. É na ética
que a justa medida deve ser buscada, com equilíbrio,
para se chegar ao melhor cuidado possível com o planeta,
com a ecologia, com a sociedade sustentável, com os
pobres, oprimidos e excluídos, com o nosso corpo na
saúde e na doença, com a cura integral do ser humano,
com o nosso espírito e, finalmente, com a morte, que ele
chama de “a grande travessia”.
“Equilíbrio” é mais
uma palavra que me leva a outro livro, recentemente
lido, com o título: “O sucesso está no equilíbrio”
de Robert Wong. Esse livro trata de diversas trilogias,
todas enfocando o equilíbrio como elemento essencial
para a plena realização do ser humano, interligando o
profissional (o trabalho), a vida pessoal (social e
amorosa) e a espiritual (valores e religião).
Robert defende a tese
de que devemos ser menos normais e mais naturais, pois
ser normal é seguir as regras da sociedade, que são
geralmente falsas, por não captarem a nossa totalidade
humana, levando-nos a comportamentos formais, quando não
hipócritas. Ser natural é seguir as leis da natureza,
que são sempre absolutas, é ter comportamento com
palavras sinceras, interação de olhar e ênfase na
intuição.
Wong alerta sobre a
necessidade de nos livrarmos da triste trilogia (medo,
raiva e culpa), que nos impede de avançar inteiros.
O medo que precisamos superar é o medo virtual, quase
sempre irreal. A raiva, quando aparecer, devemos nos pôr
fora do contexto, como expectador para analisar
friamente a questão e contar até dez, evitando, assim, a
perda do equilíbrio, o que levaria conseqüentemente a
dizermos e fazermos o que, depois, nos arrependeríamos.
Sobre a culpa, devemos perdoar às pessoas e
principalmente a nós mesmos. Livres destas três amarras,
estaremos focados no presente, neste instante
maravilhoso em que a vida se renova e onde podemos
viver, trabalhar, criar, amar e ser felizes.
Em outra trilogia,
esta sim positiva, o autor Robert enfatiza a importância
do intelecto (mente), instinto (corpo) e
da intuição (alma). Esses três aspectos precisam
existir e ser vivenciados, pois da combinação do
intelecto com o instinto nasce a emoção, da união
do instinto com a intuição surge a sensibilidade,
e da junção da intuição com o intelecto, brota a
criatividade. E da feliz união (emoção,
sensibilidade e criatividade) chegamos ao que ele chama
de iluminação. Com a iluminação, a criança
e as almas masculina e feminina que existem em cada
pessoa recomporão o universo humano e tudo se
transformará em sucesso com equilíbrio e confiança em
nós, nas pessoas e na vida.
Sou remetido com a
palavra “confiança” a novo livro. Os autores William A.
Jenkins e Richard W. Oliver, no livro “A Águia e o
Monge - os 7 Princípios da Mudança Bem-Sucedida”,
por intermédio de uma belíssima fábula, levam-nos a
pensar e concluir que em todos os lugares e também no
trabalho precisamos confiar, confiar em cada pessoa,
confiar no trabalho em grupo. Esses autores,
especialistas em gestão de pessoas, de empresas e
liderança, apresentam no livro sete princípios para se
alcançar o sucesso, entre os quais está o enfoque em se
trabalhar em grupo, com verdadeira confiança, vendo
cada componente do grupo um ser humano integral.
Para ver o ser humano
de forma plena, é fundamental sermos igualmente
integrais. Esse tema me lembra outro especial livro,
intitulado “O homem que tocou os segredos do universo”,
do autor Clenn Clark. O livro trata da vida e dos
pensamentos de Walter Russell, um gênio da música,
literatura, arquitetura, pintura, escultura, da
filosofia e das relações humanas, tendo freqüentado
apenas a escola primária. A vida deste americano parece
ter sido um milagre, mas ele acreditava na divindade
existente nele, em quem cofiava plenamente e, por isso,
tudo podia realizar.
Walter Russel, esse
fantástico ser humano, ensina as cinco leis do sucesso:
1ª - Humildade: o indivíduo, para Walter, antes
de tudo precisa se dividir e servir aos seus semelhantes
através dos serviços ou compartilhar os seus
pensamentos. 2ª - Respeito: é preciso ter
profundo respeito em saber que todas as nossas
realizações são frutos de nosso ato de interpretar o
pensamento universal. 3ª -Inspiração: a
inspiração surge para aqueles que sintonizam plenamente
com o universo, harmonizando-se e comungando com os seus
ritmos. Tanto a inspiração, quanto à intuição, são
linguagem de luz, que fazem os homens e Deus se
intercomunicarem. 4ª - Propósito profundo:
Através de intenso desejo e energia-pensamento dinâmica,
podemos tudo realizar, tornando-nos grandes criadores.
5ª - Alegria: a alegria de uma realização
concluída é que nos recarrega para novo empreendimento,
por isso ela é importantíssima.
A “alegria” é
destaque também no livro “Viabilizando talentos -
Como semear o crescimento pessoal e profissional”,
de João Roberto Gretz. Para esse autor, a alegria é
importante para os resultados positivos. Havia no
passado a restrição das empresas para a manifestação da
alegria, mas agora se sabe que ela inspira, traz a
felicidade e motiva para a realização de novas tarefas,
gerando sucesso. Gretz ainda defende a visão integral do
ser humano para a plena realização enquanto trabalhador.
O sucesso acontece para quem efetivamente é ser humano
integral, feliz e sabe o que se quer alcançar.
Nesta linha de
pensamento, o autor Léo G. Almeida, do livro “Gestação
de Processo e a Gestão Estratégica” ensina que para
ser eficaz é preciso saber o que deve ser feito, como
fazer e porque fazer e ter condições de realizar e,
sobretudo, de forma primordial, ter satisfação em
realizar o seu trabalho.
Como vimos,
precisamos praticar a espiritualidade no trabalho e em
todos os lugares, com dedicação e alegria, pois
vivenciar a espiritualidade somente nos templos não é o
mais correto, visto que as religiões se constituem
apenas como uma das portas para o espiritual.
Leonardo Boff, no
livro já citado, defenda a tese de que as religiões
ainda que revitalizem uma dimensão da existência, o
espaço institucional do sagrado e o seu poder
histórico-social, não conseguem gerar nas pessoas um
modo de ser mais solidário e nem origina uma
espiritualidade capaz de tudo religar, inclusive no Deus
criador. O importante, destaca Boff, não são as
religiões, mas sim a espiritualidade subjacente. A
espiritualidade, sim, é capaz de ligar, religar e
integrar. A espiritualidade, sim, é o paradigma (o
modelo, o padrão) da nova civilização.
Vale aqui a lembrança
do maior líder que a humanidade já conheceu, Jesus
Cristo. Ele vivenciou a sua espiritualidade com muito
amor e alegria em todos os lugares em que esteve, e
diga-se, de passagem, muito pouco atuou dentro de
templos.
Urge de forma
premente a necessidade de sermos integrais, seres
espirituais em todos os lugares e em nosso trabalho,
preservando o meio ambiente, cuidando inclusive dos
animais, vivendo com amor, com alegria, respeitando
todos os seres, confiando nas pessoas, vendo-as com
parceiras, interagindo com empatia, para melhor
entender o nosso semelhante, e, por fim, servindo ao
próximo com o melhor de nós, numa interação que
frutificada em reciprocidade criará o verdadeiro laço
fraterno, quando efetivamente estaremos sendo, como de
fato o somos, irmãos em espírito.
Abraços fraternos,
Moacir Sader
Moacir Sader
http://www.moacirsader.com
moacirsader@moacirsader.com |
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