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23/01/2007
O
RETIRO E A VERDADE
(Por: Monja
Coen)
Acordávamos
antes dos pássaros. Os insetos chilreavam enquanto nos
sentávamos em meditação. No silêncio de nossas bocas,
ouvíamos o primeiro piar anunciando a manhã. Assim
passávamos os dias. De meditação em meditação, silêncio
e orações. Plena atenção aos gestos, passos, olhos
baixos. Havia dor. A dor do corpo não acostumado a
tantas horas na mesma posição e a dor da tristeza, da
saudade, da incerteza, da culpa.
Havia a dúvida. Havia o medo de perder á razão. Como
se perde a razão? Primeiro, seria de bom senso
encontrá-la. O que é a razão? Eu tenho razão? Ele tem
razão? Estaria ela com a razão? Que arrazoado é esse?
Em um vitral da sala em que meditávamos, estava
escrito: "Não há religião superior à verdade". Era o que
nós tentávamos encontrar, a verdade. Verdade sobre nós
mesmos. Será que nos enganamos, nos iludimos e logo nos
desiludimos? Será que esquecemos a verdade em um baú
trancado em um sótão antigo, cujas escadas rangem e nos
assustam a cada passo? Mas ela deveria ser clara e
luminosa, afastando a ignorância, a ganância, a raiva, o
rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais
procuramos? Por que evitamos e nos escondemos, como se
fosse possível a verdade se esconder da verdade? Afinal,
não somos todos verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia
textos medievais, do século 13. Eram textos modernos,
atuais, até futuristas. Um deles dizia que o universo é
uma jóia arredondada e que não há nada fora dele.
É impossível jogar qualquer coisa fora, pois o fora
não existe. Tudo está incluído e se transformando a cada
instante.
Esperando o momento de me levantar, com as pernas
doendo, contando cada inspiração, eu me esquecia de meu
propósito e de minha busca. Parece tão simples e é tão
difícil. Poucos conseguem, bem poucos se interessam.
Queremos sempre ser entretidos. Gostamos de
entretenimento. Pode ser televisão, filme, música,
teatro, leitura. Podem ser encontros, festas, conversas.
Podem ser amores e desamores, afetos e desafetos,
brigas, ciúmes, inveja.
Outro dia, alguém me disse que ciúme e inveja são
diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento é egoísta,
mas ama e protege. O invejoso quer destruir, não quer
que exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa para
apagar o invejado da cena. Perigoso.
Perceba suas emoções, seus pensamentos, sensações.
Discernimento é uma palavra que os padres e as monjas
gostam muito. Responsabilidade. Escolha.
À noite, antes de ir dormir, antes do último e
delicioso toque do sino, que nos permitia levantar, com
voz lenta e dramática foi declamado: "Vida e morte são
de suprema importância. O tempo rapidamente se esvai e a
oportunidade se perde. Cada um de nós deve se esforçar
para acordar, para despertar. Não desperdice a sua
vida".
Saíamos da sala em silêncio. Alguns ouvindo tudo,
outros, nada. Mas a verdade incessante não deixava de
ser proclamada. Está sempre em toda a parte e, no
entanto, sem abrir o olho da sabedoria, nada entendemos.
"Somos a vida do Universo em constante transformação",
outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós
sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante,
árvores e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.
Quem sou eu? Quem é você? Sou o nada, sou o tudo, sou
o todo. Sou a Terra e o Universo em expansão. Sou a
borboleta e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão da
mente. Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana,
sentindo a brisa, as cores, os odores, as texturas dos
ventos, as luzes e as sombras. Nós fazíamos parte do
todo. O retiro acabou e nos despedimos. Cada um de nós
levou aquilo que pôde apanhar ou o que soube largar.
(Homenagem à
Semana da Iluminação de Buda) Fonte:
http://www.espacoholistico.com.br/ |
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