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04/09/2006
A Vida se Reconstrói.
Há
determinados momentos no caminho de uma pessoa em que
ela se vê frente a uma destruição irreparável. Algumas
vezes está vinculada ao inesperado falecimento de um
ente querido; em muitas outras, ao brusco término da
relação com alguém especialmente amado. O sentimento de
perda é arrasador. A impressão é de que a vida perdeu o
sentido, a pessoa se sente como se estivesse morta ou
morrendo. Certamente alguma coisa lá dentro morreu.
Aquele outro se torna uma ausência, uma falta
dolorosamente sentida. Em períodos como esse, tenta-se –
da maneira que for possível – sobreviver e manter a
esperança de um futuro melhor.
A morte é triste e irreversível; mais dramático, porém,
é o fim não desejado de uma história de amor. Existe uma
sensação de fracasso, de derrota e, na maioria das
vezes, um vago sentimento de culpa que acompanha a
inevitável pergunta: “onde foi que eu errei?” E por
vezes perdura a frustrante ilusão de um retorno que não
acontece. Lidar com os destroços de um amor encerrado
pelo parceiro – muitas vezes sem que se saiba direito o
que aconteceu e como – é uma tarefa penosa, tal qual
tentar sobreviver a um naufrágio. A sensação de que as
emoções estão mortas dentro de si acompanha
permanentemente a pessoa. Quando o sentimento de culpa
não impera, fica uma noção de impotência e uma idéia
dolorosa de estar sendo vítima de uma injustiça: “fiz
tudo direito, amei e me comportei bem, fui fiel, não
merecia isso”, como se ser amado fosse merecimento.
Mas a vida ressurge. Sempre. Ela é mais forte do que a
tristeza: supera o peso da dor e ergue-se impávida. Em
Nova Iorque, no Soho, na Wooster Street, existe uma
instalação do artista plástico Walter De Maria (1935-),
chamada “Sala da terra”. Trata-se de um salão de 330
metros quadrados, localizado em um andar qualquer de um
prédio comercial, coberto de terra escura. Foi montado
em 1977 e desde então lá se encontra, aberto ao público.
O visitante pode apreciá-lo da porta e não há muito para
ver. Apenas uma camada de terra de cerca de meio metro
de altura cobrindo todo o espaço disponível. Um homem
está encarregado de tomar conta do local. Sua função é
abrir e fechar diariamente a sala nos horários
estabelecidos e arrancar as pequenas folhas que
constantemente brotam da terra. Sim, porque a vida não
cessa e ressurge sempre, mesmo quando já não parece
haver mais vida nenhuma.
Pode demorar. Os que já passaram por isso sabem que um
dia todo o sofrimento passa, a tempestade se desfaz, o
bom tempo volta e o sol torna a brilhar, a aquecer a
alma e a iluminar os caminhos. Quem ainda não chegou a
esse momento pode acreditar: isso passa; pode demorar,
mas passa. É preciso manter viva a chama da esperança e
acreditar na capacidade de ressurreição do coração
arrasado. Sempre haverá no futuro a possibilidade de um
novo amor e é necessário estar preparado para receber
essa dádiva preciosa. E um dia, em um futuro por vezes
nem tão distante assim, a nova paixão ilumina com seu
brilho a alma, como o sol que ressurge e nos aquece após
um longo período de mau tempo. Ou como a primavera que
rebrota depois de um longo e escuro inverno. A vida se
impõe. Sempre.
Autoria: Luiz Alberto Py
Fonte:
http://www.albertopy.com.br/ |
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