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13/11/2006
Viver
sozinho: opção ou fuga?
Nos dias de hoje, vem surgindo um ser humano mais
independente e mais auto-suficiente e isso leva a
transformações na maneira de encarar o viver a dois, os
vínculos e as relações familiares.
As pessoas estão se habituando, cada vez mais, a estar
sozinhas: ouvem música em seus headphones, ficam menos
tempo à volta da mesa com os familiares, pois existem os
congelados e o microondas para facilitar os diferentes
horários da casa, passam horas em seus computadores e é
comum cada pessoa da família ter em seu quarto, um vídeo
acoplado ao seu aparelho de televisão próprio.
Além do hábito, portanto, aparece a necessidade de se
tornar mais independente e, mais que isto, o prazer de
estar sozinho diminuindo bastante a disponibilidade em
fazer concessões, formar novos vínculos.
Anteriormente, as concessões eram fundamentais nos
relacionamentos pois ninguém se imaginava vivendo só.
Pagava-se qualquer preço para se ter alguém,
sujeitava-se a qualquer tipo de relação. Para as
mulheres, principalmente, a idéia de estar sem um homem
ao lado, sem um companheiro, para ampará-la, protegê-la,
era insuportável, até mesmo sinal de fracasso!
Hoje, a mulher trabalha fora, é independente,
bem-sucedida e menos vulnerável a estes sentimentos.
Hoje, a mulher é capaz de manter o casamento e,
paralelamente, criar seus filhos sem tanta necessidade
de um homem para garantir-lhe a sobrevivência emocional
e financeira.
Novo estilo
Acrescente-se ainda o número cada vez maior das chamadas
famílias uniparentais - com apenas um genitor - fugindo
ao antigo padrão de um lar formado por casal e filhos. E
não nos esqueçamos, também, das mães solteiras que
decidiram ter e criar seus filhos sozinhas.
Evidentemente, todas estas transformações e opções
abalaram o conceito que possuíamos sobre família e vida
a dois.
Paralelamente à noção de poder estar sozinho (e bem!),
fala-se, como nunca, na busca do amor romântico
construído em torno da idealização e não da realidade.
Ele nos vende a crença de que o outro é tudo para nós,
proporciona a felicidade absoluta e eterna!
Esqueceram-se de ensinar como é difícil para um casal
moderno, onde ambos enfrentam uma dura rotina, conciliar
as dificuldades do dia a dia com as expectativas
exageradas em relação ao estar apaixonado...É certamente
complicado ser romântico, depois de um dia exaustivo de
trabalho quando tudo o que se quer é chegar em casa,
trocar de roupa e, simplesmente, fazer algo de que se
gosta para relaxar...
E, se depois deste dia estressante, ainda temos à nossa
espera alguém sequioso para bater um papo e relatar-nos
como foi no escritório ou como estão as crianças na
escola?! Acreditar que o casamento traz a completude ou
a plenitude e que viver a dois é a única fonte de
realização e prazer é uma idéia que precisa ser revista
para não gerar um acúmulo de expectativas, frustrações e
desapontamentos.
Manter um relacionamento
O estar apaixonado não pode ser a condição sine qua
non para se manter um casamento. Pensar ainda que o
modelo de casal ideal é aquele que passa todo o tempo
disponível juntos, que abre mão de suas atividades
individuais com amigos e que sacrifica possibilidades
pessoais para permanecer a dois é, se não uma visão
desastrosa, pelo menos sufocante!
Não há amor que sobreviva sem a possibilidade do
crescimento individual, sem espaço para a troca, para a
liberdade e para que desejos pessoais possam ser
preservados. Quanto maior a capacidade de ficar bem
consigo mesmo, menor será a cobrança interior de ter de
fazer o que não se gosta e, conseqüentemente, melhor
será a qualidade dos momentos onde se escolhe ficar a
dois. Há pessoas que passam por terríveis conflitos ao
tentar harmonizar as aspirações individuais com o estar
a dois: relacionar-se passa então pela via da
necessidade e não pela via do prazer.
É como se ainda perpetuassem dentro de si aquela velha
tese na qual se nos afastamos, estamos ofendendo o
parceiro, deixando-o de lado, desamando... É o amor
ligado ao sentido de posse, ciúme. "É melhor que ele
fique ao meu lado - mesmo infeliz - do que sair por aí,
fora do meu controle..."
Afinal, o medo de ser abandonado ou trocado denuncia um
baixo grau de auto-estima. A grande verdade é que só as
pessoas pouco maduras e muito dependentes suportam
renunciar à sua individualidade para fundirem-se numa
simbiose pseudo-romântica talvez pelo temor causado pela
sensação de desamparo, própria do estar só. Quem de nós
já não ouviu o comentário de que quem não casa está
fadado à solidão? Assim é que estamos diante de um
fenômeno psicológico tão interessante quanto trabalhoso.
O amor romântico pode destronar a vida a dois e levar,
como conseqüência à opção do viver sozinho? O amor
romântico que se acreditava tudo dá e tudo quer acaba
levando a atritos no casamento e revelando-se um modelo
inadequado para os nossos dias. Quando percebemos que a
dificuldade não está tanto na pessoa a quem nos ligamos
mas na forma do vínculo que estabelecemos, temos a
chance de reverter o quadro para que o ficar só não seja
vivenciado como a melhor opção. O impasse está portanto
em fazer com que a vida em comum apresente-se como uma
escolha melhor em termos de qualidade emocional.
Somente assim a vida a dois pode sobreviver a todas as
tentadoras "vantagens" oferecidas pela condição
solitária: dormir e comer na hora que quer, não dar
satisfação do que se faz, ter o controle da televisão só
para si, ficar no computador quanto tempo quiser, etc.
Conseguiremos transformar o casamento para que ele possa
ser competitivo em qualidade de vida? Para isto teremos
que encontrar uma fórmula onde amor e liberdade possam
conviver de maneira conciliadora.
O EU não precisa, necessariamente, desaparecer em favor
do NÓS conjugal. Apesar da rotina que esmaga parte dos
nossos sonhos debaixo do ter que trabalhar, ganhar
dinheiro, cuidar dos filhos, não podemos negar que o
casamento pode ter muitos encantos e pode proporcionar
belos momentos de felicidade
Para que tais momentos ocorram basta que adicionemos
alguns ingredientes fundamentais ao bem viver: amizade,
lealdade, cumplicidade e companheirismo e, em
contrapartida, abrir mão daquela forma infantil de amor
apaixonado regido pelo ciúme, possessividade,
impossibilitando a individuação e colocando a culpa dos
problemas no outro.
A vida em sua velocidade exige mudanças. Mas nem sempre
as permite tão facilmente...
Enfrentar este enigma, eis o desafio!
Katia Horpaczky é Psicóloga Clinica e
Organizacional, Psicoterapeuta Sexual, Familia e Casal,
Especialista em Workshops Vivenciais e Jogos
Organizacionais, Arte-Terapeuta, Practitioner em N.L.P.
pelo Southern Institute of N.L.P. e pela Society of
Neuro Linguistic Programming. Treinada com a metodologia
de OUT DOOR TRAINING pela Dinsmore.
E-mail:
katia@rodadavida.com.br
Tel: (11) 5573-6979
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