Preconceito ou falta de ética?!?
Eram quatro naquela
mesa... Conversavam animadamente. A certa altura,
inevitável: começaram a falar sobre relacionamentos _
casamento, casos, traições...
Nem se eu quisesse
conseguiria não escutar. Estava sentada bem ao lado,
na mesa mais próxima, a menos de dois metros de
distância, sozinha. E, confesso: o tema da discussão
me interessava.
Era fácil perceber que
ninguém ali tinha entre si qualquer ligação além de
uma amizade circunstancial. Ela, uma mulher bonita,
extravagantemente alegre, aproximadamente 40 anos,
chamava a atenção por sua autenticidade. Ele, de idade
equivalente, era notavelmente elegante. Seu olhar se
esforçava para parecer seguro, mas pendia um pouco
para o arrogante. Talvez apenas um excesso
desnecessário.
Os outros dois – um
casal um pouco mais jovem – comportavam-se mais como
coadjuvantes no cenário em que se desenrolava o
polêmico tema. Mas foi o homem mais jovem quem se
atreveu a revelar primeiro: “casamento é complicado,
difícil... Filho pequeno, menos de um ano, a mulher
sempre ocupada... o jeito é ficar com as garotas pra
agüentar o tranco!”...
Falou assim, como quem
se redime de qualquer culpa, acreditando que sua
justificativa fosse bastante plausível. A mulher mais
nova quis saber: “você já saiu com a Queila, aquela do
banco?”... E os detalhes iam sendo acrescentados
aos casos, entre olhares espantados (dela) e
empolgados (dele).
De repente, num instante
que a mim pareceu, enfim, um mínimo de lucidez, ela –
a mulher mais velha – inconformada, disparou a
pergunta: “ô, cara! Você ainda acha divertido sacanear
assim a sua mulher? Têm menos de 3 anos de casados, um
filho que acabou de nascer e já se comporta desta
maneira?!?”
Ao que o outro homem – o
mais velho – saiu à defesa do amigo: “Poxa, Bel, o que
tem contra os homens que ficam com outras garotas?
Como você é preconceituosa!!!”
E ele estava falando
sério! Deu-se o direito, inclusive, de se sentir
indignado! Não era brincadeira... não era cinismo...
não era piada de mal gosto!!! Ele estava realmente
espantado com a inconformidade dela!
Tive que me segurar!
Minha vontade era a de me levantar e dizer: “Opa!!!
Tem alguma coisa errada! Acho que o senhor não sabe o
significado das palavras ‘preconceito’ e ‘ética’! Não
são sinônimas!”...
Fiquei tão chocada com o
comportamento dele que não consegui mais prestar
atenção na conversa! Mergulhei num questionamento
sobre o que anda acontecendo com os valores, a postura
das pessoas, o posicionamento de cada um diante de um
compromisso assumido e chamado de amor!
Preconceito, para mim, é
subjugar alguém por causa de sua etnia, religião,
orientação sexual, doença ou necessidade especial,
enfim, é discriminar as pessoas por questões que nada
têm a ver com falta de caráter, de dignidade e de
honra.
Agora, é preconceito não
aceitar a traição?!? Será que se tornou preconceito
também não aceitar atitudes como ferir e tripudiar
sobre o outro? Não seria isso uma evidente falta de
ética, de respeito e de honestidade?!?
Por favor, não estou
dizendo que sou perfeita e nem que acho que as pessoas
não sejam passíveis de cometerem erros! Cometemos,
todos nós. Eu erro também, bem mais do que você talvez
suponha! Mas peraí!!! Daí a chamar o espanto diante do
erro de preconceito já é demais!!!
Já faz um tempo que
venho me questionando sobre isso! Evito as
generalizações a todo custo. Recuso-me, tanto quanto
possível, a acreditar que todas as pessoas são iguais,
no entanto, me pego olhando para todos os lados e
enxergando uma massa de pessoas que juram amor, mas
traem, mentem, enganam.
Cheguei quase a duvidar
de minha crença, perguntando a mim mesma: “será que
trair não é tão errado assim?!?”. Mas não posso
concordar. Recebo, semanalmente, várias mensagens de
pessoas sofrendo horrores por conta deste
comportamento; sentindo-se destruídas, machucadas,
profundamente feridas... Não pode ser certo!
E num momento de nova
atenção à mesa ao lado, ouvi a mulher mais velha
rebatendo, inflamada: “e se ela fizesse o mesmo com
você?”. Ao que os rapazes, como se tivessem
combinado, responderam rapidamente: “ah, eu mato os
dois!”. E espantados consigo mesmos, entreolharam-se e
riram.
Quer saber?!? Peço a
Deus que me dê forças para continuar não traindo,
porque isso só pode ser coisa de quem não tem a menor
noção do que seja amor...