Estar só pode ser
um jeito de amar!
Costumamos pensar que só
ama, de fato e de direito, quem está com alguém,
namorando, casado ou encaixado dentro de qualquer
outra relação que inclua o outro, necessariamente. No
entanto, estar só também pode ser um jeito de amar, de
relacionar-se, mesmo que temporariamente.
Todos nós, em algum momento da vida, já nos
encontramos indisponíveis, mesmo que não
comprometidos. Seria como dizer que estamos em posição
de espera; e a espera pode ser um exercício divino,
que inclui paciência, consciência e, fundamentalmente,
presença de si mesmo!
Então, ama-se só a si mesmo, enquanto se espera para
estar pronto. Ama-se só para um período de revisão, de
recauchutagem, de reforma interior. Ama-se só para
resgatar em si valores perdidos, defasados,
esquecidos, para voltar a acreditar em algo que se
esvaiu numa decepção, para reformular a alegria, a
vontade de viver, o desejo de compartilhar.
Porque engatar uma relação na outra para fugir deste
amor só, de si consigo mesmo, é o que muitas pessoas
fazem... é o que todos nós, provavelmente, já fizemos
alguma vez. Entretanto, se em algum momento decidirmos
nos olhar com acolhimento e respeito, certamente
perceberemos que ninguém pode curar uma ferida que é
nossa. E até para que alguém nos ajude nesta difícil
recuperação, precisamos estar prontos, conectados com
o que há de mais íntimo em nossas almas. Isto é,
amar-se só.
Por outro lado, também existe quem fica
continuadamente sozinho, enclausurado em seu próprio
medo a fim de evitar a reincidência da dor, para
descartar a possibilidade de "perder" novamente. E
esta escolha, da mesma forma, também não nos remete à
evolução, não nos possibilita uma atualização preciosa
para que o amor compartilhado aconteça.
Neste sentido, estar só
pode deixar de ser incapacidade ou incompetência para
se transformar em ‘expertise’; você pode não se
comprometer com o outro - seja por decisão pessoal ou
circunstancial - para estar melhor, mais inteiro, mais
atraente e consciente do amor que quer compartilhar,
para que quando o outro chegue, você possa
recepcioná-lo à altura do que tem para oferecer.
Creio que esteja mais do
que na hora de pararmos de impor uma relação direta
entre "estar junto e feliz" e "estar só e abandonado".
Ou seja, estar junto nem sempre significa estar feliz,
assim como estar só pode não ser sinônimo de abandono.
A referência é interna e pessoal. O centro é o coração
de cada um e, por isso mesmo, a decisão de ficar ou de
ir, de fechar-se ou de se abrir deve estar baseada na
percepção que você tem de si mesmo, no amor que sabe
de si, que reconhece seu momento, e que escolhe, a
despeito das pressões sociais, se compartilha amor ou
se o singulariza temporariamente.
Vale esclarecer que não estou defendendo o não-amor,
até porque vocês sabem - não acredito nisso. Pessoas
que insistem em justificar sua "solidão" em nome da
não necessidade do outro estão, a meu ver, tentando
encobrir uma carência inconsciente, latente, gritante
e muito mais visível do que imaginam. Todos nós
precisamos do outro, não porque sejamos insuficientes
a nós mesmos, mas porque é no ato de compartilhar
vidas que nos tornamos mais inteiros, mais felizes,
mais humanos.
Quando defendo o amor só - veja! - não deixei de falar
de amor. Falo do amor primeiro, do essencial, do amor
por si. E, sobretudo, falo de um período e não de uma
decisão irrefutável, como crenças limitantes que não
nos levam a nenhum ganho. De qualquer maneira,
continuo, então, defendendo o amor compartilhado, com
o outro, mesmo que seja somente depois de um tempo de
amor singular!