Por que ciúme
é parente próximo da inveja
O desejo de querermos que o parceiro fique focado
somente no relacionamento amoroso, pode estar também
ligado ao fato de enxergamos o amado fazendo coisas
que nós gostaríamos fazer, e não estamos, como
viagens, conversar com amigos...
O ciúme é um sentimento
humano, bem como a raiva, o ódio, o amor ou a paixão.
Sendo assim, como todo sentimento, precisa ser
entendido e integrado à consciência quando necessário,
para que haja um crescimento psíquico e pessoal e
também para que incômodos, sofrimentos ou angústias
sejam aliviados. Então, discorreremos sobre o ciúme e
algumas de suas implicações.
O que o ciumento deseja é que seu objeto de amor seja
somente seu e de mais ninguém; ou seja, seu parceiro
não pode ser dos amigos, da família, do trabalho, dos
livros, dos esportes favoritos, dos filmes prediletos,
de mais ninguém. Esse modelo de amor, de querer
dominar e possuir o amado, na verdade, é uma tentativa
de manter sempre o controle, a ordem e a rigidez das
coisas. Isso é pura pretensão do ego, já que o amor
não existe quando a vontade de poder e de controlar o
outro se instala; o amor não obedece à vontade
consciente do ego, mas sim de algo maior, do Self.
Assim para *Whitmont, o ciúme é uma reação egóica para
compensar tanto o medo da separação como o medo de
perder o controle, e revela uma genuína incapacidade
de sentir dor e aceitar separações, fracassos e
derrotas. Não nos relacionamos verdadeiramente com
alguém, quando pensamos que teremos o controle sobre o
outro e, que dessa maneira, poderemos evitar
separações e sofrimentos. Além disso, "a dificuldade,
o fracasso e a mágoa são tão indispensáveis ao
refinamento da consciência quantos os êxitos e o
êxtase da felicidade." (Whitmont, 1991:127)
O relacionamento puro, definido por **Giddens,
pressupõe que haja igualdade na abertura emocional
entre os parceiros e, ao mesmo tempo, traz uma
autonomia para cada um dos apaixonados. Ou seja, à
medida em que nos abrimos verdadeiramente para o
parceiro, conseguimos perceber e aceitar suas
características, potencialidades e seu desenvolvimento
de uma maneira positiva, e não como uma ameaça para
nós mesmos ou para o relacionamento amoroso. A partir
daí, fica mais fácil aceitar e entender que o parceiro
tenha amigos, trabalho, vida social intensa e que não
esteja envolvido somente no relacionamento. E quando
há um relacionamento puro estabelecido, percebe-se que
a individualidade do outro não exclui seu envolvimento
no relacionamento, e assim, pode-se aceitar também a
própria individualidade.
O desejo de querermos que o parceiro "congele" e fique
focado somente no relacionamento amoroso, pode estar
também ligado ao fato de enxergamos o amado fazendo
coisas que, na realidade, nós gostaríamos de estar
fazendo e não estamos, como por exemplo: viagens,
conversar com amigos e pessoas interessantes, etc. Não
admitir que o parceiro faça essas coisas, revela uma
falta de capacidade de viver as próprias
potencialidades, que estão sendo vividas e projetadas
no outro, além de uma dificuldade de aceitar o amado
como ele realmente é. Ciume é parente próximo da
inveja.
O ciúme não é a melhor forma de mensurarmos o amor, já
que quem sente ciúme de maneira exagerada, como vimos,
não aceita as características individuais, as
potencialidades e não comemora as conquistas do
parceiro; não aceita que o amado seja como ele
realmente é. Pelo contrário, o ciumento deseja que a
pessoa amada seja e viva de acordo com as vontades
dele. Isso é prova de amor? Para o Grupo Junguiano de
Aprimoramento em Questões Amorosas: não! Preferimos
alguém que nos deixe viver como desejamos e que vibre
e fique alegre junto conosco quando conquistamos algo
que almejamos muito; ou que nos incentive nos nossos
projetos de vida.
*WHITMONT, E. C. O
Retorno da Deusa. São Paulo: Summus, 1991.
**GIDDENS, A. A transformação da intimidade. São
Paulo: Editora da Unesp, 1992
Autores e
integrantes do Grupo de Aprimoramento Junguianao
PUC-SP : Carla Regino, Fernanda Menin, Helena Girardo
de Brito, João Paiva, Lilian Loureiro, Luiz André
Martins, Mariana Leite, Marina Winkler, Priscila Parro
e Thiago Pimenta - sob a coordenação da profa. Dra.
Noely Montes Moraes