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02/04/2007
Modos de amar
Uma das frases que estamos acostumados a ouvir é: ‘Eu
amo a meu modo’. É claro que isso é dito em conseqüência
das queixas e insatisfações do companheiro, que se sente
pouco atendido em suas pretensões de carinho e atenção.
Será mesmo que existem vários modos de amar? Ou será que
a hipótese é usada, de má-fé, para encobrir a falta da
capacidade de amar?
Há pessoas que gostam – e necessitam – de relações
afetivas próximas e intensas, ao passo que outras
preferem relações mais frouxas. Quando duas pessoas com
expectativas amorosas diferentes se unem, é claro que
aquela que espera um relacionamento mais intenso fica
insatisfeita, mesmo quando o parceiro se dedica a ela da
forma mais leal e honesta. Acho que talvez seja mais
adequado pensar em diferentes graus de intensidade
amorosa em vez de pensar em diferentes formas de amar.
Sim, porque esta última forma de raciocinar abre as
portas para muitos tipos de comportamento claramente
egoístas, em que se podem usar palavras de natureza
amorosa sem que elas venham acompanhadas de
comportamentos compatíveis. Dizer ‘eu te amo’ não custa
nenhum tipo de esforço ou sacrifício. Se expressões
desse tipo não vêm acompanhadas de atitudes próprias
desta emoção, elas são pura demagogia.
Funciona mais ou menos assim: o demagogo diz que ama a
seu modo e que isto não significa ter atitudes de
dedicação e agrado em relação ao seu par. Por outro
lado, ele espera do parceiro a renúncia e a generosidade
próprias do modo de amar do outro. O processo envolve,
pois, dois pesos e duas medidas, uma vez que as pessoas
que amam a seu modo nunca se relacionam intimamente com
outras pessoas que amam do mesmo modo que elas,
preferindo pessoas que amam de um modo mais
convencional.
Temos todas as razões do mundo para desconfiar das
palavras, especialmente daquelas que não vêm
acompanhadas de atitudes coerentes com elas. Acho melhor
encontrarmos uma só forma de descrever o amor e
definitivamente só considerarmos como capazes de amar
aqueles que se comportam de acordo com o descrito. Ou
seja, penso que a melhor forma de conceituar o amor seja
considerar que aquele que ama se sente muito bem em
agradar e paparicar a pessoa amada.
Uns farão sacrifícios maiores para isso do que outros,
mas todos aqueles que amam de verdade sentem-se felizes
interiormente quando são capazes de proporcionar alegria
e felicidade ao amado. Amar é, então, gostar de agradar
a pessoa amada, ficar feliz com sua felicidade, querer
ver a pessoa prosperar. É fazer todo o possível para que
estas coisas se realizem.
Agradar a pessoa amada significa fazer as coisas que a
deixam satisfeita e, principalmente, que a fazem
sentir-se amada. E o que agrada a outra pessoa não é
obrigatoriamente o que nós achamos que vai agradar. É
importante observar quem se ama, conhecer seus gostos e
vontades. Não tem cabimento um homem dar uma jóia de
presente a uma mulher que não gosta de jóias! Às vezes
vale mais uma flor do que um anel de brilhantes.
Quando não existe esse tipo de troca num relacionamento,
penso que não deveríamos usar a palavra amor para
descrever o elo que une duas pessoas. Não é raro que um
dos indivíduos seja do tipo que sempre gosta de
paparicar o parceiro, ao passo que o outro é
displicente, só gosta de receber agrados, ‘ama a seu
modo’. Nesse caso, o que agrada ama, mas não está sendo
amado, está sendo explorado. É co-autor de uma história
de amor unilateral.
Não posso esconder as reservas que tenho em relação a
esses tipos de relacionamento. Eles não fazem parte das
verdadeiras histórias de amor, que são sempre trocas
ricas e gratificantes para ambos os envolvidos. As
verdadeiras histórias de amor acontecem quando duas
pessoas amam do mesmo modo, e o sentimento provoca
sempre uma enorme vontade de cuidar do amado.
Por Flávio Gikovate
www.flaviogikovate.com.br
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