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14/05/2007
Não sei, não quero saber,
e que quem saiba não me conte!
Tenho observado com mais critério, ultimamente, uma
situação recorrente nos relacionamentos atuais. É o
desejo exagerado e a valorização equivocada que muita
gente tem nutrido acerca da “transparência”.
Tenho ouvido várias pessoas afirmando categoricamente
que preferem saber de tudo o que seus parceiros fazem,
ainda que isso sirva sobretudo para dilacerar sua alma,
destruir seu coração e pisotear sobre seus valores.
Isso sem falar do Orkut, um ‘site-vitrine’ exposto, por
algumas pessoas, de modo leviano, e transformado num
mundo de fantasias absurdas. E se não bastasse a
construção diária de tamanha ilusão, milhares de pessoas
se deixam influenciar por ela para fazer escolhas
importantíssimas em sua vida!
É um novo e desastroso jeito de praticar o antigo
voyeurismo – isto é, bisbilhotar o outro em sua
intimidade. Acontece que, originalmente, a idéia é olhar
para (e sentir prazer pelo) o que existe de real,
enquanto que pelo Orkut, o que se vê não é –
definitivamente – real e, muito menos, tem proporcionado
prazer.
E o que vemos, por fim, é o resultado de desejos
enrustidos e tentativas ‘mortas’, mascaradas, carentes
de coragem, verdade e força para se tornarem concretas.
Claro que existem vantagens de se usar o Orkut, mas é
preciso maturidade para usufruir delas!
Enfim, vivemos a era da transparência, mas nem sabemos o
que isso significa e para quê serve. Queremos saber da
vida do outro sob a justificativa de que somos sinceros
e desejamos reciprocidade, de que preferimos agüentar a
dor da verdade a imaginar a hipótese de estarmos “sendo
feito de bobos”.
O que é isso?!? Desde quando estamos prontos para uma
verdade que, no final das contas, nem existe? Desde
quando o humano é passível de tanta transparência?!? Não
sabemos nem de nós mesmos, o que dirá do outro!!!
Mudamos de idéia, pensamento e até de opinião o tempo
todo e queremos que o outro nos passe relatório de seu
mundo interior!!! Como assim?
E depois não entendemos por que estamos tão neuróticos,
tão depressivos, tão ansiosos, tão estressados...
Desejamos uma verdade sem nos darmos conta de que, para
conhecê-la, precisamos antes investir em nosso
amadurecimento, em nosso equilíbrio, na consciência
superior de quem somos e o que temos para transparecer
ao outro.
Mas, não! Simplesmente almejamos a utópica sensação de
poder, de controle, de manipulação acerca do futuro e da
vida alheia... e o que conseguimos? Frustração,
decepção, brigas, cobranças, desentendimentos,
rompimentos, lágrimas, ofensas, desrespeito e
humilhações.
Não estou defendendo nenhuma das partes: nem a que
constrói uma fantasia sob o rótulo de verdade e nem a
que se corrói por descobri-la, como se acabasse de
encontrar um mapa do ‘tesouro’. Tudo o que temos
encontrado, nestas buscas insanas e infantis, está mais
para bomba-atômica do que para algo que se pareça com
alguma verdade ou tesouro.
Sugiro que, antes de saber, querer saber ou perguntar a
quem sabe sobre o quanto o outro tem sido sincero,
transparente e verdadeiro conosco, consigamos responder
a nós mesmos quais são as nossas verdades, o que temos
feito para ser verdadeiramente transparentes. Com que
intensidade e por quanto tempo podemos manter um
determinado sentimento, uma opinião ou uma
circunstância...
E que todos nós, em alguma medida, seguindo o ritmo de
nossa maturidade, percebamos que mais importante do que
saber tudo sobre o outro é nos mantermos focados em
nossas intenções, no desejo real de viver o que há para
ser vivido... e a verdade do outro será apenas e tão
somente uma natural conseqüência...
Que paremos, de uma vez por todas, de nos deixar
influenciar por fantasias ou – pior – de investir tanto
tempo construindo fantasias por conta própria, seja
sobre nosso próprio mundo, seja sobre o mundo do outro.
Porque a transparência de fato não está no que ele diz
ou faz, nunca! Está dentro de cada um; em cada uma das
escolhas que fazemos a cada instante, e que tantas vezes
nem percebemos...
Estarmos um pouco mais atentos às escolhas que temos
feito e, assim, sabermos um pouco mais sobre nós mesmos,
é o que realmente importa!
Rosana Braga -
www.rosanabraga.com.br
Escritora e Consultora em Relacionamentos. Palestrante
na área de Desenvolvimento Profissional e
Relacionamentos Interpessoais. |
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