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28/05/2007
O Medo de Amar
Esse medo faz com que as pessoas arrumem desculpas e
justificativas para explicar suas inseguranças. Ele faz
parte da nossa vida. Negá-lo ou inventar respostas
fáceis é o que menos resolve.
Todos os seres humanos possuem um grande objetivo na
vida: viver em estado de pleno amor. Talvez poucas
pessoas estejam conscientes da importância que o amor
tem ou pode ter em sua existência. Alguns vivem o amor
em sua plenitude pelo simples fato de dispor dele em
abundância. Aprenderam a amar, a se entregar ao ser
amado e a criar relacionamentos criativos.
Infelizmente, porém, a realidade da maioria é o
permanente estado de carência, de confusão emocional, de
miséria afetiva. Vivem em solidão, isolados num
apartamento, ou num casamento sem amor, ou em relações
superficiais sem um envolvimento profundo.
O grande medo do homem moderno é o de amar, que é tão
grande quanto o medo de não ser amado. Num mundo tão
materialista, muitas pessoas se sentem envergonhadas de
amar, como se fosse algo ridículo e bobo. Somos seres
nascidos para o amor e, no entanto, negamos na prática
nossa própria essência.
Cada um de nós sabe que amar alguém pode provocar uma
sensação de fragilidade e dependência; a presença do
outro torna-se vital, e a possibilidade de ser
abandonado a qualquer momento fica tão ameaçadora que,
em geral, as pessoas optam pela saída mais fácil:
sabotar a possibilidade de viver um grande amor.
Eis aqui um dos grandes dilemas do ser humano: queremos
viver um grande amor, mas procuramos o tempo todo
destruí-lo. Certamente, as tentativas de destruição não
são totalmente deliberadas e planejadas, porém o que
conta é o resultado final.
O medo de amar é uma praga, uma erva daninha que
corrompe o coração da maioria das pessoas. E depois vêm
as queixas de solidão, desilusão, sofrimento.
Imagine o caso de uma amiga. Estamos numa segunda-feira
e você vê, ao longe, no corredor da faculdade (ou da
fábrica, escritório ou consultório), a sua amiga Sueli.
Ela está esplendorosa, radiante. Sua aura brilhante está
à mostra, pulsando com todo o vigor. Ao aproximar-se
dela, você a cumprimenta com entusiasmo e pergunta o que
está acontecendo.
Ela responde que encontrou o homem de sua vida, alguém
inteligente, culto, sensível, bonito, com uma conversa
atraente, participativa, e um jeito másculo e sensual.
Sueli fala do olhar meigo e penetrante do parceiro, do
seu toque suave, de seus abraços (mais gostosos que um
mergulho no mar em dia de sol) e, para completar, diz:
“Não entendo como um homem tão especial ainda não se
casou! Agora que o encontrei, tenho certeza de que vou
fazer tudo para dar certo”.
Ela se despede e você sai todo feliz, por ver que sua
amiga, por fim, encontrou alguém capaz de motivá-la a
amar e a viver um grande amor.
Uma ou duas semanas depois, você a encontra outra vez e
percebe que ela já não está tão radiante. Seus passos já
não parecem tão firmes e, quando você lhe pergunta “Como
está indo o namoro do ano?”, ela friamente responde:
“Vai bem”.
Você pensa: “Como um namoro com um homem tão sensacional
pode ficar, em menos de duas semanas, simplesmente...
bem?”
Ela continua: “Estamos nos dando conta de um monte de
desacertos. Acho que ele me tolhe muito; estou me
sentindo sufocada, mas vamos levando”.
Vocês se despedem, e uma série de imagens de
relacionamentos com pessoas especiais que você amou e
das quais, por causa dessa mesma sensação de sufocamento,
se separou começa a aparecer na sua cabeça.
Quando você a encontra alguns dias depois, ela está
visivelmente de baixo-astral, com a aparência de que
algo ruim aconteceu. Antes de você falar qualquer coisa,
ela diz: “Não deu certo, nós nos separamos. Foi melhor
assim; pelo menos nós nos respeitamos e não nos
machucamos”.
Sem mais comentários, ela se despede. Cada um vai para o
seu lado e você continua pensando como pôde acabar, tão
rápido, algo que tinha tudo para dar certo.
Ou será que foi exatamente porque ia dar certo? Não terá
sido justamente por causa do medo de que desse certo?
O medo de amar existe.
Esse medo faz com que as pessoas arrumem desculpas e
justificativas para explicar suas inseguranças. Ele faz
parte da nossa vida. Negá-lo ou inventar respostas
fáceis é o que menos resolve.
Certa vez, depois de um caso amoroso mal resolvido, um
rapaz muito bem-sucedido nos negócios desabafou: “Meu
coração secou e está fechado”. Em todas as ocasiões
fazia o maior esforço para parecer seguro,
autoconfiante. Estava convencido de que jamais deixaria
alguém invadir novamente seu espaço, sua vida. Talvez
imaginasse que, destruindo o amor antes mesmo de ele
nascer, teria chances de sair “ileso” de qualquer
relação. O medo de sofrer novamente por amor era tão
grande que inviabilizava uma nova relação. Por medo de
sofrer, condenou-se a sofrer todos os dias a dor da
solidão.
O melhor, sem dúvida, é estar atento para esse medo, dar
um mergulho na própria vida e perceber que, no fundo,
quando alguém está decidido a ficar sozinho por medo de
ser abandonado outra vez, não consegue mais enxergar o
amor e tampouco tem olhos para a pessoa amada.
Roberto Shinyashiki é psiquiatra, palestrante e autor de
12 títulos, entre eles o “Tudo ou Nada”, “Heróis de
Verdade”, “Amar pode dar certo”, “O sucesso é ser feliz”
e “A carícia essencial”. |
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