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07/09/2006
AS MULHERES, O SEXO E A
TERCEIRA IDADE
Estava deixando o auditório quando ele me procurou. Após
os agradecimentos de praxe (“parabéns pela palestra
sobre sexualidade na Terceira Idade, muitas informações
úteis, coisetal”), foi direto ao ponto:
- Doutor, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Na hora
não perguntei,
mas não tem como levar uma dúvida dessas pra casa...
afinal de contas, por que todas as mulheres perdem o
fogo quando chegam aos 55, 60 anos ou mais?
Olhei para ele com quem perdeu o melhor da festa. Ou
pior: chega todo
arrumado e toca a campainha no endereço errado às duas
da manhã. Puxa, ele deveria ter perguntado aquilo
durante a palestra... ! Mas, pensando bem, fazia sentido
ter aguardado até o final. No auditório havia várias
dezenas de respeitáveis senhoras devidamente armadas com
suas bolsas e uma colocação assim poderia resultar até
em tentativa de linchamento.
Seguimos caminhando enquanto ele desfiava seus lamentos.
Lá se iam 30 e tantos anos de convivência harmoniosa,
filhos e netos e sonhos em comum, mas as coisas já não
eram as mesmas. Como estava atrasado para um outro
compromisso (a vida moderna é isso aí: correr de um lado
para o outro para quase sempre chegar em lugar algum),
fui embora com a promessa de que escreveria em breve
sobre seu caso específico - e não escrevi. E me
arrependi profundamente. E decidi que procuraria
redenção escrevendo não para um marido, mas para
milhares de pessoas de uma só vez. Pois aqui estamos nós
hoje. Mãos à obra!
A Sexualidade e o Envelhecimento estão cercados de
mitos. Apesar dos avanços nas últimas décadas, mantemos
uma idéia muito negativa sobre a sexualidade na Terceira
Idade, como se o sexo fosse um clube exclusivo para
jovens bonitos e saudáveis. Só entra quem tiver
carteirinha da UNE com laudo de aptidão médica.
Bom, fico satisfeito em informar que a verdade está bem
distante disso.
Existe desejo na Terceira Idade, sim, e muito sexo
também! E estas duas características devem começar a ser
aceitas como uma parte normal da vida – porque elas de
fato o são. Ou você acredita que existe data de
vencimento para a capacidade de apaixonar-se, excitar-se
e relacionar-se sexualmente? É óbvio que não existe.
Estudos recentes revelaram que mais de 70% das pessoas
acima dos 60 anos de idade têm no mínimo uma relação
sexual por semana. Repito: no mínimo. É uma boa média.
Mesmo assim, o mito de que todas as mulheres perdem o
desejo com a idade parece persistir. Por que? Por vários
motivos.
Em primeiro lugar, as mulheres parecem se interessar
menos por sexo
pelo simples motivo de existirem poucos homens
disponíveis. Em média, elas vivem 5-7 anos a mais que os
homens. Como resultado, de cada 10 mulheres com mais de
65 anos, 3 são viúvas. Em contrapartida, apenas 1 de
cada 10 homens com mais de 65 anos de idade é viúvo.
Elas até procuram por parceiros, mas eles são mercadoria
escassa.
Além disso, a sociedade é tolerante com homens mais
velhos que namoram mulheres mais novas, mas a recíproca
não é verdadeira. Mulheres mais velhas com homens mais
novos são vistas com uma boa dose de preconceito.
Ou seja: elas não possuem um grande número de parceiros
potenciais na mesma faixa etária, e são “moralmente
proibidas” de se relacionar com homens mais jovens. Aí
pegou. Não é de admirar que muitas prefiram fingir que
não têm mais interesse no assunto. Na verdade,
simplesmente desistiram de lutar contra os padrões de
comportamento vigentes.
Um outro motivo para o mito está no fato da maioria das
mulheres na
Terceira Idade ter sido criada em uma realidade repleta
de tabus, onde o sexo não aparecia em letras de funk ou
enredos de novelas. Estas
mulheres tendem reprimir suas ânsias por questões de
formação pessoal, e permanecem aprisionadas no receio de
serem incompreendidas. O medo de críticas por parte da
família é outra barreira difícil de transpor.
Por último, existe a questão biológica. Após a
meia-idade, as alterações dos níveis hormonais resultam
em diminuição do apetite sexual, tanto nas mulheres
quanto nos homens. A maior incidência de doenças
crônicas (depressão, hipertensão, diabetes, artrite,
etc) e uma auto-imagem mais crítica também contribuem
para que as mulheres coloquem o sexo em segundo plano.
Ainda assim e apesar de todas estas mudanças, pesquisas
mostram que a abstinência sexual na Terceira Idade
ocorre mais por circunstâncias que por escolha própria.
Enfim, uma mulher com 60 anos não é uma extraterrestre.
Da mesma forma que respirar, ir ao banheiro e dormir, o
contato sexual continua sendo uma função normal do seu
organismo. Ser forçada a abrir mão dele para manter uma
imagem aceitável perante a sociedade não garantirá dias
mais tranqüilos, mas poderá significar uma vida um pouco
mais vazia. A lição que fica é que um mito deve ser
tratado como um mito; e uma mulher de 60 anos ou mais,
como uma mulher – que por acaso tem 60 anos. Ou mais.
Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor, palestrante,
autor de “Vida e
Saúde da Criança” e “Crianças em forma: saúde na
balança”
(www.editoranatureza.com.br) e colunista do jornal
Estado de Minas. Atualmente reside e clinica em Belo
Horizonte, Minas Gerais.
Fonte:
http://br.groups.yahoo.com/group/saudeparatodos/
© Dr. Alessandro Loiola E-Mail/MSN:
alessandroloiola@yahoo.com.br
Fone: +55 (31) 3432-7555 – Fax: +55 (31) 3432 1222 |
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