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  Sexualidade    <+Artigos  
  09/10/2006

Sexualidade na Infância

Hoje em dia falar sobre a sexualidade já não é algo tão novo e inusitado como foi na época de Freud mas penso que podemos observar e discutir o real sentido que ele deu ao que chamou de "sexual", além de desfazer alguns mau entendidos e confusões.

A novidade que Freud trazia chocou a comunidade científica da época assim como a seus leitores, em parte porque estava em desacordo com a moral vigente, pois trazia a noção de que as crianças não eram anjinhos assexuados, mas seres humanos que já nasciam com uma expressão de necessidades e desejos operantes desde o início da vida.

Depois com o desenvolvimento da teoria e sobretudo observando seus pacientes, Freud concluiu que a maior parte dos seus sintomas estavam relacionados ás fantasias e desejos da infância que haviam sido reprimidos, portanto já estava aí a noção de que muitas coisas aconteciam no decorrer da infância; tais como uma atividade psíquica intensa aonde se apresentavam desejos, fantasias e sensações, vividas primeiramente na relação da criança com seus genitores.

Uma das idéias fundamentais quando falamos de sexualidade é que não estamos nos referindo a genitalidade, no sentido do contato sexual adulto. Tendemos a restringir o termo a algo mais conhecido, mas o que a psicanálise introduz é uma nova compreensão do que se entende por sexual.

O termo 'sexual' para nós esta ligado a uma expressão de energia vital - a qual Freud chamou de libido- ligada a vida, ao prazer/ desprazer, ás necessidades, aos vínculos, ao desejo e á própria origem da formação do psiquismo, aspectos que vamos elucidar a seguir.

É muito importante podermos diferenciar instinto do que Freud denominou de pulsão. O instinto refere-se a um esquema de comportamento herdado, próprio de uma espécie animal, que pouco varia e que se desenrola segundo uma seqüência temporal pouco suscetível de alterações e que parece corresponder a uma finalidade (mecanismos inatos de desencadeamento, estímulos-sinais específicos, etc).

A pulsão nos remete a idéia de impulso, ação, que nos leva em direção a algo através das infinitas possibilidades de se representar o desejo.

Para ilustrar o que estamos querendo dizer, vamos tomar como exemplo a primeira atividade da criança com a alimentação e sua relação com a mãe. O bebe sente fome que se expressa como dor e desconforto e precisa que a mãe perceba seu estado e traga o alimento. Ao ser alimentado e nutrido satisfaz a fome mas ao mesmo tempo vive uma experiência de contato físico e emocional com a mãe, sentindo-se aconchegado, através do calor, do cheiro e das várias impressões e sensações que estão simultaneamente ocorrendo.

Assim, essa experiência de satisfação, embora apoiada inicialmente nas necessidades biológicas, ultrapassa-a pois vai além da vivencia do bebê de apenas saciar a sua fome e se estende às qualidades psíquicas prazerosas que vivencia no contato com a mãe.

Nesse sentido, segundo Freud, a pulsão é um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, sendo o fator propulsor do funcionamento do aparelho psíquico. O que podemos ter acesso, são as representações mentais através das transformações do que é sentido em nível somático em algo de natureza psíquica.

Desta forma a mãe ou o outro que a representa, nos cuidados com a criança, que pode ir dando o sentido psíquico a essas vivencias e auxiliando-a na formação e construção do seu mundo mental.

Assim o bebe desfruta de um grande prazer ao ser alimentado. O fato é que essa primeira experiência de gratificação começa a ser registrada em sua memória e deixa sua marca.

Quando o bebe sente fome novamente e ao chorar e espernear não obtém de imediato a presença da mãe e o alimento, recorre a experiência interna que foi registrada através da alucinação, ou seja, imagina que chupando o próprio polegar pode saciar-se. Acontece que aos poucos experimenta de novo fome e desconforto pois essa atividade de fato não o alimenta.

Freud chamou essa atividade de desejo e alucinação que tem sua origem nesse período muito precoce da formação do psiquismo e que no decorrer da vida vai ser muitas vezes utilizado tanto na infância quanto na vida adulta.

Nesse período surge também a possibilidade da criança alcançar prazer sem a presença do outro e Freud deu o nome a esta atividade de auto-erotismo, que se caracteriza pelo prazer no próprio corpo, ligado a uma zona erógena específica, como a boca, posteriormente o anus e partes do corpo. Só depois é que a libido vai se ligar a um objeto externo inteiro e não mais a partes no corpo.

Importante notar que esses fenômenos vão ocorrendo simultaneamente e com o tempo, por isto falamos de um desenvolvimento. Assim, ao falarmos em sexualidade estamos nos referindo às fantasias ligadas às vivencias corporais e às zonas erógenas.

Nesse sentido pode-se observar o quanto a região oral destaca-se inicialmente como um local onde se estabelecem trocas significativas. Além de mamar, a criança apreende pela boca a conhecer os objetos sugando, mordendo, mastigando ou seja experimentando-os das mais diversas formas e assim vai tendo impressões e representações de si, das pessoas e do ambiente.

As vivencias relacionadas com a alimentação, o desmame, o uso da chupeta, as mordidas, o chupar o dedo ou mesmo as fantasias ligadas ao devorar, incorporar, se apropriar, etc, só são possíveis na relação com o outro. A influencia da dinâmica que se estabelece nesta interação é importante no desenvolvimento psíquico e se constituem das mais variadas formas no mundo mental.

Estas experiências emocionais são muito complexas e envolvem afetos ligados a idéias inconscientes que estão determinando o comportamento sem nos darmos conta. Como exemplo, a criança não comer para agredir os pais, morder o outro para se apropriar do que deseja dele, etc.

Na seqüência, podemos destacar a fase anal, através dos vários sentidos que as fezes, a urina, o desfraldar podem ter para as criança na interação com a sua família e o ambiente.

Dessa forma, os produtos corporais, podem representar para a criança, autonomia, independência, presentes e oferendas de coisas boas para os pais assim como ataque agressivos como queimar, sujar, envenenar, controlar e reter, descarregar e expulsar, etc.

Como exemplo citaremos o comportamento da criança que não suporta lidar com sujeira ao mesmo tempo que quer ter o controle das situações. Muitos destes comportamentos são a expressão de fantasias que lhe causam angústia das quais não se dá conta.

Na continuidade do desenvolvimento emocional cabe ressaltar as vivencias edípicas relacionadas ao sentimentos da criança de identificação e ao mesmo tempo de rivalização com os pais, principalmente os do mesmo sexo, não tolerando sentirem-se excluídos e não fazendo parte da intimidade deles e tendo que renunciar á concretização dos seus desejos.

Como exemplo podemos citar a freqüência com que as crianças insistem em dormir entre os pais, o ciúme intenso que expressam ao ver os pais juntos, o desejo de casar e de possuir para si o genitor do sexo oposto, etc.

Assim, ao descrevermos o desenvolvimento da sexualidade infantil, esperamos estar contribuindo para uma melhor compreensão dos educadores frente a estas vivencias tão recorrentes na sua prática cotidiana.

Fonte:
http://www.miriamaltman.psc.br

 
     

 
 

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