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06/11/2006
No sexo, a biologia conta
menos que a cultura.
Escrevo com cautela, tentando comunicar
exatamente o que tenho conseguido pensar sobre o peso
da biologia em nossa forma de ser. Sei do parentesco
genético que temos com os mamíferos superiores. Sei
também que nosso cérebro foi capaz de produzir uma
linguagem sofisticada e, graças a ela, nos iniciamos
na mágica do pensar. Nos tornamos conscientes de nossa
condição mortal, formamos juízos de valor, construímos
regras de vida em comum. Sabemos programar o futuro e
imaginar situações inexistentes. Passamos a ter alma
(mente, razão): o fruto da atividade cerebral se
distanciou de tal forma das suas reações químicas que
temos a sensação de que pensamos com autonomia. Não
interessa aqui discutir se a alma sobreviverá ao
corpo; não é o nosso tema. Porém, enquanto vivos,
temos a sensação de que possuímos esta entidade
imaterial responsável pelas nossas reflexões e também
pela comunicação que estabelecemos uns com os outros.
Nenhum animal possui nada que se
assemelhe à nossa alma. O cérebro, ao ser capaz de
gerar pensamentos, nos distanciou radicalmente dos
nossos ancestrais biológicos. Creio que somos mais
“filhos de Deus” do que “primos dos macacos” (acho
isso até mesmo se Deus não existir!). Assim, não
considero os zoólogos como pessoas indicadas para
falar de nós. Há um abismo qualitativo que nos
diferencia dos macacos mais sofisticados.
É
claro que somos influenciados pelas nossas
propriedades biológicas, já que elas interferem no
processo de pensar, que se passa no cérebro (e que
está sob a influência dos hormônios e de tudo o que se
passa no corpo). Porém, não creio que somos escravos
de tais propriedades. Elas definem tendências e não
devem ser entendidas como ordens: possuo um desejo
sexual desencadeado pela visão de um belo corpo
feminino, mas não sou obrigado a ir atrás dele e
atracá-lo a qualquer custo. Tenho vontade de bater em
alguém mais fraco e que me ofendeu; mas não sou
obrigado a agir assim. Tenho razão e discernimento
para decidir se vou o não acatar os meus impulsos
naturais.
Tratar nossos impulsos biológicos como
ordens está a serviço das piores causas. Sustenta a
tese de que a infidelidade sexual masculina está a
serviço da perpetuação dos genes dos mais fortes, que
em sociedade os mais dotados – física ou
intelectualmente – têm direito de massacrar e oprimir
os mais fracos e tudo o mais que se queira validar.
Privilegiar a biologia implica em descaso pela nossa
razão e sua força. Isso defende a idéia de que as
pessoas imaturas e que não têm controle sobre suas
emoções e sentimentos é que estão certas e são a obra
máxima da nossa espécie. Negar a potência e o vigor da
razão é negar nossa capacidade de autogestão, de
podermos ser senhores de nós mesmos.
Felizmente, a verdade não é essa. Os
próprios padrões culturais seculares são
periodicamente reformulados por nossa razão sempre
atuante. O planeta que habitamos não é o mesmo dos
macacos e fomos nós que o construímos (para o bem e
para o mal). Mudamos o planeta e nos adequamos às
novidades que inventamos. Nos 40 anos que venho
trabalhando, assisti a várias mudanças inesperadas na
história sexual da nossa espécie. Cito duas: o fim
abrupto e inesperado do que se chamava de tabu da
virgindade e o surgimento do “ficar”. A emancipação
financeira das mulheres (derivada inicialmente do fato
dos homens estarem no front militar ao longo da
segunda grande guerra) e mais a invenção das pílulas
anticoncepcionais provocou, em poucos anos, uma
dramática alteração no padrão cultural milenar que
exigia que as mulheres se mantivessem virgens até o
casamento. O “ficar”, inventado pelos adolescentes,
fez com que meninos e meninas da mesma faixa etária e
mesma condição sócio-cultural se encontrassem
sexualmente sem nenhum tipo de compromisso futuro,
fato inesperado até por aqueles que, como eu, estavam
atentos às possibilidades de mudança.
Assim, não cabe responsabilizar nem a
biologia e nem mesmo os padrões culturais tradicionais
pela nossa inação. Não podemos mudar o mundo, mas
somos livres para mudar nossas vidas. Sugiro, para
começar, duas mudanças: 1. que os rapazes mais bem
formados emocional e moralmente podem parar de invejar
os paqueradores profissionais, aqueles que substituem
as experiências qualitativas com parceiras escolhidas
por afinidades pela série interminável de conquistas
eróticas fundadas em mentiras sedutoras. Ficam com o
que há de pior: as primeiras relações (onde todos
estão um tanto desajeitados) e o desejo de sumir da
pessoa logo que o desejo se sacia – já que ele era o
único fator de atração. 2. que as moças mais maduras
sejam mais discretas e não se deixem escravizar pelo
exibicionismo tão ao gosto daquelas que costumam usar
seus poderes para obter benefícios de toda ordem. São
duas sugestões fáceis de serem implementadas e que
estão em franca oposição a todos os padrões da cultura
atual fundada no consumismo (e no lucro das grandes
empresas) do que na nossa felicidade. Elas são só as
primeiras de uma enorme lista de sugestões que ainda
pretendo fazer, todas elas possíveis de serem postas
em prática imediatamente pelas pessoas de boa vontade
e que sejam portadoras de uma razão atuante. Não
podemos mudar o mundo, mas podemos, sim, mudar nosso
destino individual.
Flávio Gikovate
http://www.flaviogikovate.com.br
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