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30/04/2007
SEXO, ETERNO ENIGMA
O homem vive dramas profundos de identidade, a mulher se
depara com novas formas de se expressar no papel
feminino e a sociedade se escandaliza e reage chocada ao
descobrir o que é classificado como perversão sexual.
Todos esses são temas presentes na história do cotidiano
e, mesmo com a "liberação" da prática sexual que
encontra facilidades no mapeamento das cidades grandes,
onde as pessoas sabem onde comprar drogas e onde
encontrar garotos e garotas de programa para uma noite
de prazer, há tabus que permanecem e que jogam os homens
ao fundo do poço dos conflitos quando sexo é tema de
discussão. Problemas como esses foram debatidos pelo
psicólogo, psicanalista e doutor em Psicologia
Fundamental pela Universidade de Paris VII, Paulo
Roberto Ceccarelli, no curso de mestrado organizado pelo
Departamento de Psicologia da Universidade Federal do
Pará e em entrevista à Troppo.
Que mudanças marcam as manifestações da sexualidade,
hoje, no que diz respeito a categorias identitárias?
É preciso voltar um pouco no tempo para falar de
mudanças ao abordar a sexualidade. Tudo começou em
meados do século passado quando, numa tentativa de
retirar do domínio jurídico certas manifestações da
sexualidade ditas perversas, e transferi-las para a
ordem médica a fim de que fossem "tratadas", os sujeitos
passaram a ser identificados por suas práticas sexuais.
Por exemplo, no século passado, o sodomita era aquele
que praticava atos jurídicos proibidos; a partir da
segunda metade do século XIX, temos o homossexual que é
"transformado" em um personagem, do qual se tenta
precisar um passado, uma história e uma infância, enfim,
uma morfologia: nada de seu todo escapa à sexualidade...
"O homossexual transforma-se numa espécie". Estão aqui
lançadas, as bases para aquilo que em nosso século será
acentuado: os comportamentos sexuais são transformados
em identidades sexuais. Quanto às mudanças, se houve
mudanças, acho que devem ser entendidas muito mais no
campo da globalização, das "demandas" do capitalismo, do
que em verdadeiras mudanças de posições e preconceitos.
Ou seja, quando uma determinada classe social passa a
representar um potencial de consumo, quando detêm o
poder, passa a ser "aceita".
Cada sujeito, então, faz sua criação particular?
Você atribui isso ao que chama de sobrevivência
psíquica. Essa reflexão tem a ver com a questão
anterior. Trata-se do absurdo de se tentar reduzir o
sujeito à sua prática sexual. No entanto, cada sujeito
tem que lidar, a partir de seu nascimento, com a
particularidade do contexto sócio-familiar que é único
para cada um. Esses são os elementos dados a cada um de
nós para nos constituirmos como sujeito. Nessa
perspectiva, se não nos tornamos psicóticos, se
"sobrevivemos" psiquicamente, cada forma de sexualidade
que cada ser humano apresenta - por mais que,
aparentemente esta sexualidade se encaixe, ou não, na
"norma" ditada pelos costumes da sociedade na qual ele
está inserido - é uma criação única, para certos autores
uma obra de arte. Entretanto, o porquê de tal forma de
sexualidade é que pode ser explicada pelo mito que cada
um de nós constrói: "sou assim porque mamãe fez isto ou
aquilo; por que meu pai... etc, etc. Neste sentido, o
sujeito cria uma ficção para construir sua
autobiografia, pois nunca se tem acesso como, de fato,
as coisas aconteceram.
O discurso é o que limita a prática sexual do sujeito?
Acho que esta questão está definida na primeira
pergunta. O discurso limita, sim, o sujeito à sua
prática sexual. Por exemplo: para muitos, é mais
chocante descobrir que determinado sujeito, que até
então tem tido uma conduta ético-social acima de
qualquer suspeita, apresenta práticas sexuais ditas
desviantes, do que descobrir que este mesmo sujeito cuja
prática sexual enquadra-se no que dita a norma, é um
perverso em outras esferas da vida social. No entanto, a
forma como o sujeito vive sua sexualidade, não constitui
nenhuma garantia de normalidade sob outros aspectos.
Assim, é comum ouvir-se dizer: "fulano de tal é sádico",
"aquele outro fetichista", "descobriu-se que aquele
sujeito tão correto, honesto e trabalhador, casado e pai
de três filhos, tinha práticas sadomasoquistas com uma
prostituta!", e assim por diante, esquecendo-se que o
sujeito vai além disso, e que limitá-lo à sua prática
sexual é uma atitude perversa.
Que tabus foram derrubados se sexo e sexualidade ainda
são assuntos de difícil abordagem nas discussões entre
pais e filhos?
O grande problema é que se as práticas sexuais hoje
estão bem mais "liberadas", a sexualidade continua sendo
um eterno problema. Basta ver a ineficácia das campanhas
do uso do preservativo e da gravidez na adolescência:
"falar de sexo", e isto em qualquer nível que se queira
abordar a questão, tem necessariamente que levar em
conta a dimensão fantasmática da sexualidade; a
informação objetiva pouco altera os aspectos afetivos do
problema.
Que tipos de conflitos dos papéis sexuais estão mais
evidentes hoje a partir da sua experiência como
analista? A questão da sexualidade continua levando
muita gente ao divã?
Sexualidade tem, é importante lembrar, que ser entendida
no sentido amplo. Ou seja, não apenas a sexualidade
genital. Em psicanálise, sexualidade é tudo que dá
prazer: comer, dormir, as necessidades fisiológicas,
etc. Nessa perspectiva mais ampla, a sexualidade
continua, e continuará sempre, a levar as pessoas ao
divã. Mesmo antes da psicanálise, tínhamos os
confessionários que faziam este papel. A partir da
primeira metade deste século, e mais tarde graças aos
movimentos feministas, os papéis sociais, que são
culturalmente determinados sem nenhuma âncora na
realidade anátomo-fisiológica, têm sido reavaliados.
Apenas um exemplo: hoje a mulher pode engravidar sem a
participação do homem. Isto tem trazido grandes mudanças
que são, necessariamente, acompanhadas de conflitos: o
novo é ameaçador.
Nesse rol de conflitos, a bissexualidade é um tema
recorrente ao conceito de perversão e muito presente até
no papo de mesa de bar. Qual a contribuição de Freud
para rediscutir a perversão sexual?
Em 1915, Freud escreve:"Do ponto de vista da
psicanálise, o interesse sexual exclusivo por homens ou
por mulheres também constitui um problema que precisa
ser elucidado, pois não é fato evidente em si mesmo". De
fato, na origem somos todos bissexuais. Mas uma tal
afirmação deve ser bem entendida: não somos todos bi por
que nascemos assim. No começo, no período da
constituição do psiquismo, nos identificamos com as
referências simbólicas do masculino e do feminino. A
monossexualidade, o sentir-se homem ou mulher - o que
nada tem a ver com a chamada "escolha" de objeto - é
talvez a maior ferida narcísica que o ser humano tem a
enfrentar.
Freud provocou uma reviravolta nos debates sobre as
perversões sexuais. O problema vai ser discutido para
além do novo milênio...
Enquanto seus predecessores se empenharam em
classificar, etiquetar, a traçar um inventário das
perversões sexuais, Freud realizou uma virada
fundamental e profundamente inovadora. A contribuição de
Freud para a compreensão das perversões não vem do tipo
de material clínico observado, mas da afirmação
escandalosa de que as tendências perversas catalogadas
pelos seus colegas como aberrações humanas assombram o
espírito de todos os homens, inclusive daqueles que as
catalogaram, estando também presente nas crianças: "a
criança é um perverso polimorfo". A visão freudiana da
pulsão sexual diversificada, anárquica, plural e parcial
- oral, anal, vocal, sádica, masoquista e tantas outras
roupagens que ela pode tomar - abre uma nova dimensão
para se pensar a perversão que ultrapassa as fronteiras
da sexualidade genital.
Que tipo de crise está enfrentando o homem contemporâneo
e que é mais evidente a partir de uma ótica
psicanalítica?
As noções de "masculino" e de "feminino", assim como as
relações que tais noções mantêm entre si, têm sido
repensadas na atualidade. Uma das conseqüências disto é
que os papéis "classicamente" masculinos não se
sustentam mais. A antropologia nos informa que a
masculinidade, assim como a feminilidade, longe de serem
realidades objetivas e muito menos fenômenos naturais
calcados em elementos anátomo-biológicos são, antes,
noções dependentes das formas culturais dentro das quais
tais noções emergem. Os rituais para tornar-se homem não
encontram equivalentes para o torna-se mulher. A
masculinidade é construída num espaço social e político.
Assim, as mudanças nessas referências têm provocado aqui
o que se chama crise da masculinidade. Sabe-se que um
número importante de homens não suporta a vida após a
separação. Nos consultórios somos procurados por pais
que nos perguntam como devem agir com os filhos e assim
por diante.
Como os pais devem se conduzir ao enfrentar, por
exemplo, a descoberta de que o filho ou filha apresentam
um "desvio" de conduta sexual?
Não há receita para isto. O "choque" depende de como os
pais lidam com a própria sexualidade. Basicamente, diria
que não se deve reagir com a sexualidade dos filhos
segundo normas morais que nada nos informam da
particularidade de cada um.
A mulher que enfrenta em pé de igualdade com os homens
as sucessivas crises econômicas e defende suas
liberdades ainda cultua sonhos de Cinderela?
Embora ainda existam aquelas que esperam o príncipe, os
movimentos feministas trouxeram conquistas que, por
outro lado, impuseram deveres. Creio que, de maneira
geral, a mulher tem disputado mais o mercado de
trabalho. No capitalismo, é a produção que conta, e não
o sexo de quem controla a produção. Entretanto, nas
camadas menos favorecidas, as mulheres pouco mudaram
suas posições.
O psicanalista Eduardo Mascarenhas vislumbrava que no
ano 2000 a liberdade erótica traria como conseqüência o
empanturramento erótico. Vendo por esse ângulo, o
sujeito está fadado ao tédio da sexualidade provocado
pelo excesso de consumo do erotismo?
Se é verdade que as grandes cidades são hoje
inteiramente mapeadas em termos de prazer - sabe-se onde
comprar drogas, onde se localiza a prostituição
feminina, a masculina, os travestis e até,
dolorosamente, a prostituição infantil - isto indica que
a sexualidade foi banalizada. No entanto, como já disse,
tal atitude pouco afetou o "enigma" da sexualidade. E
hoje, observa-se um grande erotismo, ou pornografia,
que, no fundo, serve para evitar relacionamentos mais
profundos. Mas acho que isto é algo que está
acontecendo. Temos que ter o cuidado para não sermos
moralistas e acreditarmos que as coisas estão piorando.
Isso é outra conversa.
Paulo Roberto Ceccarelli*
E-mail:
pr@ceccarelli.psc.br
* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia
Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris
VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em
Psicopatologia Fundamental...
Entrevista concedida à Revista Troppo, do Jornal "O
Liberal", de Belém do Pará http://www.oliberal.com.br/troppo/entrevista.html
Texto: Ronald Junqueiro |
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